Nancy Thame
A agricultura urbana é uma realidade em grande parte dos municípios, sendo um dos caminhos inteligentes na busca pela sustentabilidade.
Ernst Götsch, agricultor e pesquisador suíço, pai da chamada “agricultura sintrópica” – caracterizada pela organização, integração, equilíbrio e preservação de energia no ambiente –, dizia que um dos únicos caminhos capazes de salvar os grandes centros urbanos de um colapso, não muito distante, era a agricultura urbana acompanhada pela gestão de resíduos, feita de forma local, simples e eficaz.
Referência internacional em Sistemas Agroflorestais Sucessionais, Ernst Götsch desenvolveu uma apurada técnica de plantio cujos princípios e práticas podem ser aplicados a diferentes ecossistemas, com uma visão da agricultura que reconcilia o ser humano com o meio ambiente. São conceitos e práticas possíveis para a agricultura urbana, que muitas vezes é mal compreendida. É uma mudança de paradigmas.
Pensando nisso e considerando a grande demanda que temos recebido, a Sema (Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento) está na fase final da elaboração do Programa Municipal de Agricultura Urbana, a fim de regulamentar e fomentar essas práticas que já acontecem e têm se intensificado na nossa cidade.
Na verdade, há um contingente diversificado de práticas rurais no ambiente urbano. É preciso entender, mapear, estudar e criar canais de interlocução para a construção do embasamento do programa, que deve ser bastante inclusivo, respeitar legislações e considerar as potencialidades e limitações existentes.
Entre os objetivos do Programa Municipal de Agricultura Urbana estão o fomento à geração de trabalho e renda, o combate à fome e a garantia da segurança alimentar e nutricional, e a redução do custo do acesso ao alimento para os consumidores de baixa renda.
O incentivo à produção para o autoconsumo, o associativismo e a venda direta do produtor, além do aproveitamento de terrenos ociosos do município são mais alguns propósitos do programa. Faz muito sentido termos estratégias de uso para o grande número de áreas com potencial de produção em Piracicaba, incluindo pessoas em programas bem elaborados.
Entre as diversas ações que o programa envolve, está a identificação das áreas com aptidão agrícola na área urbana e a definição das mais prioritárias, baseadas em dados técnicos. A viabilização e a aquisição de produtos da agricultura urbana para os programas governamentais de aquisição de alimentos também é um ponto importante, bem como o fomento à comercialização destes produtos. As parcerias são fundamentais, e o programa prevê este trabalho em conjunto, visando a capacitação e outras atividades educacionais.
É uma ótima oportunidade de aumentar o bem-estar das pessoas, de deixar nossa cidade mais verde e de dar finalidade correta aos resíduos que geramos. Por mais que a cidade nos ofereça diversos outros atrativos, é importante estarmos sempre buscando a relação mais direta com a natureza.
Quando se criam novos valores, constrói-se também um novo olhar estético. Quando falamos em agricultura urbana, falamos em novos valores. Falamos da territorialização e a desterritorialização de jardins e canteiros que visam a favorecer a vida e canteiros baseados nos padrões estéticos europeus de séculos passados, que obedecem uma ordem que já se mostrou ser completamente insustentável, organizados como se fossem vitrines, tratam a vida como objeto e enxergam a matéria orgânica como “lixo”.
Mudar o ponto de vista pode não ser uma atitude aparentemente simples, mas foi sempre ela que alavancou as transformações mais revolucionárias de que temos notícia.
Vivemos um momento de correntes distintas em todas as áreas, aplicadas de forma diferente, que ora convergem e ora divergem. Assim, respeitar opiniões, respaldar conhecimento em pesquisa e direcionar esforços para a qualidade de vida das pessoas e do planeta torna-se essencial.
Deste modo, justifica-se a importância do Programa Municipal de Agricultura Urbana, construído pela Sema para nortear as práticas agrícolas dentro do território urbano de Piracicaba, no qual estamos abertos para sugestões, antes de ser encaminhado à Câmara Municipal, e posteriormente instituído como lei.
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Nancy Thame, secretaria de Agricultura e Abastecimento (SEMA)