Adolpho Queiroz
Tenho o mais profundo respeito pelos amigos da imprensa local, afinal foi com a maioria deles que convivi durante muitos anos, aprendi a ser professor da área de jornalismo e a colaborar infinitas vezes para a difusão do que há de melhor no trabalho jornalístico local e, sempre conectado com as questões culturais, com as quais sempre tive afinidades. Minha primeira reportagem assinada foi sobre o Museu Prudente de Moraes, entre outras tantas.
Contudo, entristeço-me com as inverdades publicadas durante os últimos dias, em especial quando o tema trata-se da transferência do prédio da Pinacoteca do local atual para o barracão 14 A no Engenho, uma decisão possível graças à legitimidade conquistada pelo atual governo, e imensamente apoiada, contra a mesmice do tempo anterior.
Vamos então por partes. Na terça-feira, o jornalista e advogado Cecílio Elias Neto sugeriu em seu artigo que eu transformasse a verba de R$ 800 mil reais, indicada pelo Governador do Estado para “a reforma de bens e prédios públicos”, fosse transformada em verba para distribuir aos artistas através de concursos públicos. Provavelmente esqueceu-se das suas aulas no curso de Direito, mostrando que leis são feitas para serem cumpridas. Que os artistas locais receberam em 2020, mais de R$ 2 milhões dos cofres públicos federais para implantação de 154 ações nas várias linguagens da Cultura, e que ainda há mais R$ 350 mil a serem liberados pela mesma lei. E que não temos prerrogativas legais para agir em contrário. Afinal, somos um Governo legalista. E não toleramos jeitinhos. Mostra desatualização do autor sobre questões legais.
O segundo veio do vereador Pedro Kawai, sugerindo que façamos um plebiscito na cidade para ver quem é contra e quem é favorável à mudança da Pinacoteca. Como se sabe, trata-se de tema já definido de forma legal pelo governo eleito da cidade. Não me lembro de ter participado de algum plebiscito anterior para saber se o Teatro Losso Netto poderia ter ficado fechado por sete anos; e não houve plebiscito para a instalação do horrível fosso para orquestra, onde não cabem mais que dez músicos, se o Teatro Erotides deveria mesmo ter tido aquele nome; se as contas dos funcionários da prefeitura poderiam ser vendidas a um banco, em troca de apoio e se o famoso e pichado peixe da entrada da cidade poderia ser construído onde foi, como foi e por quem foi… Por que um plebiscito agora? O resultado das urnas, delegando-nos a legitimidade no pleito eleitoral não basta?
E, por fim, outro artigo anunciava a segunda morte da Pinacoteca. A Pinacoteca, reitero pela enésima vez, não será desmontada, destruída ou qualquer coisa parecida. Ela será mudada de seu habitat de patrimônio histórico para outro, com igual titulação. A propósito, o autor Ale Bragion defende que os quadros de Almeida Júnior não poderiam sair de lá. É bom que seja informado que não há um único quadro de Almeida Júnior na Pinacoteca. E também que o seu busto (obra do artista piracicabano Manoel Martho) na praça, não é de bronze, mas de cimento. Entre outras demonstrações de desconhecimento sobre o que escreve.
Mesmo na administração passada, o Salão de Belas Artes foi realizado no hall do Teatro Dr. Losso Netto vários anos, pois a Pinacoteca estava caindo aos pedaços, e ainda está.
É ruim para a cidade abrigar formas dispares e a meu juízo, desonestas, de influenciar a opinião pública em relação a um projeto que só visa trazer o bem aos artistas, ampliar seu público com mais visitação e desmontar o castelo de 80 a 100 visitantes por mês, baixa ocupação, alto custo gerencial e má gestão que nos impede, por exemplo, neste momento, de informar a todos, qual o número de quadros do acervo da Pinacoteca, de esculturas, pinturas, fotos e instalações. E, em especial, porque raramente o acervo foi motivo de exposições periódicas naquela casa.
Em visita à Pinacoteca do Estado, voltamos com boas ideias para o serviço de aperfeiçoamento e informações para sua atualização. Lá em São Paulo, eles fazem exposições permanentes do acervo, como pretendemos fazer por aqui. Tem áudio descrição de autor, temas, ano em que foram premiados em salões, áudio-descrição para públicos específicos, entre outras.
Lamento, profunda e publicamente, que opinião pública, em nome da liberdade de opinião, seja bombardeada com tantas invencionices. Apelo aos amigos editores dos nossos jornais para que sejam mais cuidadosos e que tantas inverdades não sejam publicadas em suas páginas.
Opinar é direito de todos. Mentir, não.
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Adolpho Queiroz, secretário municipal da Ação Cultural de Piracicaba (Semac)