Pai Herói

Tarciso de Assis Jacintho

 

Era primavera em Piracicaba. Aqueles anos do início de década de oitenta foram especiais mesmo. Estávamos em novembro de 83. Eu era um garoto que ouvia a Blitz e o Ritchie no rádio e assistia todo santo domingo ao Programa Silvio Santos, do Domingo no Parque até ao Show de Calouros e para encerrar não podiam faltar as aventuras dos patrulheiros do CHiPs, a série de ocasião.

Como vocês podem ver aqueles eram bons tempos mesmo. Um ano antes, eu com então nove anos vi a seleção do Telê ganhar muitos jogos na copa da Espanha. O Maradona para mim era o capeta em pessoa. Assisti todos os jogos na casa dos meus primos no início da rua XV de novembro. Só o jogo contra a Itália assisti em casa por conta de uma tia que chegou de São Paulo e era fã do Falcão. Acho que deu azar e vi a Itália ser campeã do mundo na minha primeira copa.

Meu pai aparecia às vezes em casa. Ele nunca morou com a gente, mas naqueles tempos ele era uma figura mais presente. Estava tomando jeito desde que nos procurou na Igreja Presbiteriana do Piracicamirim, perto do campo do XV. Ele era uma figura, chegava em casa de lambreta, todo estiloso com uma japona cheia de adesivos. Por conta desta lambreta, estávamos ficando mais juntos, pois ela vivia quebrando e íamos a oficina do Téio e enquanto este consertava os vazamentos do motor com Durepoxi, o Téio era uma espécie de MacGyver das romizetas, eu me meu pai marcávamos passeios em meio a fumaça daqueles motores dois tempos.

Entre os muitos passeios que nunca fizemos um fizemos e foi especial. Meu pai me levou a um jogo de futebol. E não era um jogo qualquer. Era uma espécie de final, como aquela que o Brasil não jogou em 82. Lá estava eu naquele 27 de novembro de 83 assistindo a fase final da divisão de acesso do Paulistão.

Meu pai me deixou na numerada em meio aos torcedores e foi embora. Calma como eu disse ele estava tomando jeito. Ele estava trabalhando no policiamento, algo que ele detestava, assim cumpria seus deveres como Policial Militar e pai ao mesmo tempo. Enfim lá estava eu perdido com nove anos no meio de toda aquela euforia. O jogo era tenso, para se ter uma ideia o XV havia empatado em Bauru uma semana antes e o juiz escalado foi o Dulcídio Vanderlei Boschilia, também um policial que sempre era lembrado para escalar jogos com um clima tenso. A recomendação era que eu não saísse dali de jeito nenhum. Mas o odor proveniente do pé de um senhor que estava sentado ao meu lado somado a todo aquele clima totalmente impróprio para uma criança de nove anos fez com que eu descesse até o alambrado para chamar meu pai.

Sabe aqueles pesadelos típicos da infância que você corre e não sai do lugar? Ou que você grita e ninguém te ouve? Foi exatamente isto que eu vivi até o final do 1º tempo. Meu pai estava de costas para o campo, mas não me via mesmo que a distância que nos separasse não fosse maior que dez metros.

No intervalo ele me achou, por sorte eu não estava mais chorando, até porque filho de polícia não chora. E agora estava eu assistindo ao jogo dentro do campo, ao lado do banco do Noroeste. De dentro do campo, o jogo não é tão legal de se ver. Só que eu não esperava o que estava prestes a acontecer.

A sequência que eu tenho na memória é mais ou menos a seguinte: Uma falta, um jogador saindo de maca, o uniforme era vermelho, mas tenho quase certeza que ele estava sangrando, uma explosão, era gol do XV!

O problema era que era sangue mesmo e o gol foi aos 49 do 2º tempo. O clima fechou. A torcida invadiu, mais a do XV que a do Noroeste. Meu pai falou para eu entrar no fosso e não sair. Assisti tudo dali apavorado. Foi então que aconteceu. Um meliante aproveitando da confusão tentou roubar o revólver daquele policial baixinho. Para azar dele aquele policial era meu pai, a partir dali meu herói. O meliante não consegui tirar o revolver do coldre e saiu correndo. Meu pai sacou do cassetete e vendo que não o alcançaria o arremessou a uma distância que, para mim, era impensável e acertou a nuca do coitado, que caiu e foi algemado após tomar uns bem merecidos tabefes.

Os ânimos foram contidos, esperei sentado por meu herói e fomos embora de lambreta para casa. No próximo sábado, era o jogo contra o Bandeirantes, aquele em que o Panaia soltou uma galinha no campo como reza a lenda. Mas neste eu não fui, minha mãe ficou sabendo da confusão e proibiu meu pai de me levar.

Não me tornei um quinzista, mas nunca deixei de ter um carinho especial pelo time da minha cidade até porque meu pai nunca torceu por time nenhum. Ele só ia ao estádio para ser herói.

FICHAS TÉCNICAS DOS JOGOS

27/novembro/83

XV DE PlRACICABA 1 X NOROESTE O

Local: Barão de Serra Negra (Piracicaba);

Juiz: Dulcídio Vanderlei Boschilia;

Renda: Cr$ 18 260 000.00;

Público: 19 123;

Gol: Lima 49 do 2.°;

Cartão amarelo: Ferreira e Luis Fernando

XV de Piracicaba: Pizelli, Carluccio, Ailton Luis, Dario e Otavio; Vadinho, Lima e Pianelli; Tim (Paulo Cardoso, 16 do 2.°). Brandão e Gilberto (Chicão, 7 do 2.°). Técnico: Galdino Machado

Noroeste: Silvio Luis, VáIter, Gomes (Sidnei. 15 do 2.°), Jorge Fernandes e Ferreira; Luis Fernando, Janio e Helinho; Osmair, Jenildo e Marcelo (Airton, 19 do 2.º). Técnico: Tonho

30/novembro/83

XV DE PIRACICABA 3 X BANDEIRANTE 2

Local: Barão de Serra Negra (Piracicaba);

Juiz: Almir Ricci Peixoto Laguna

Renda: Cr$ 18 800 000,00

Público: 15 241

Gols: Carluccio 7 e Dicão 13 do 1º; Lima 20, Chicão 39 e Paulo César 52 do 2º

Cartão amarelo: Ulisses, Tim, Mauro, Vadinho, Carluccio e Gilberto.

XV de Piracicaba: Pizelli, Carluccio, Ailton Luis, Dario (Paulinho, intervalo) e Otavio; Vadinho, Lima e Pianelli; Tim (Chicão, 14 do 2.°). Brandão e Gilberto. Técnico: Galdino Machado

Bandeirante: Fernando. Mauro, Ulisses. Edson Fumaça e Pecos; Paulo Cesar, Jaime (Sobral, 27 do 2º) e Dicão; Pedro Paulo, Lula e Zé Luis (Pedrinho, intervalo). Técnico: João Magoga

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Tarciso de Assis Jacintho, administrador, pai da Ana Clara

 

 

 

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