Patrícia Dutra
Tenho refletido e conversado muito com colegas de profissão sobre a função paterna na formação do ser humano, pois ainda observamos em nosso cotidiano que a educação dos filhos é, em grande parte, delegada às mães.
Uma breve busca na internet nos leva a observar que não faltam cursos, artigos e profissionais que se propõem a orientar sobre como educar os filhos, como lidar com momentos de birra, como colocar limites sem perder o afeto e até como montar cardápios alimentares e culturais para que as crianças se desenvolvam.
Vez por outra, temos a oportunidade de observar reuniões de pais e mestres em diversos espaços semelhantes e essas observações comprovam, paulatinamente, que esses espaços ou ambientes de orientação são raramente povoados pelo gênero masculino, ou seja, pela figura paterna.
Ressalto que não estou afirmando que não existam pais interessados ou dispostos a participar da educação dos filhos. Eles existem, com certeza, eu mesma conheço alguns e já tive a oportunidade de manifestar minha admiração por essas figuras que “nadam contra a corrente”.
E por ter a honra de conhecer homens, pais efetivos, é que compreendo que nossa sociedade dificulta o exercício da paternidade de uma maneira mais presente e ativa.
Os homens ainda encontram empecilhos nesse exercício, como o fato de que entre eles o assunto educação dos filhos não se apresenta como temática corriqueira.
Por outro lado, nas rodas de mulheres, a maternidade é um assunto em pauta. E isso não é um fator minoritário, as meninas desde pequenas se acostumam com esse assunto e passam a acreditar que maternidade é um assunto feminino, enquanto os meninos compreendem que existem outros assuntos masculinos.
Nessa categorização, o prejuízo é social. Os homens, quando pais, não sentem a mesma liberdade para expressar suas angústias, medos, desconhecimentos e ansiedades em relação à educação dos filhos. Então, muito se critica os pais ausentes, mas a própria sociedade não favorece o exercício da paternidade presente e ativa.
Sabemos que não existem receitas, entretanto, sabemos que a predefinição de papéis somente perpetua a ausência paterna ao passo em que eterniza o paradigma machista de que a mulher é a única ou a maior responsável pela educação e formação dos filhos.
Estou prestes a ser avó e pretendo aprender a exercer esse papel na convivência com o Otto.
Meu filho, Leonardo, será pai, e, apesar de estar aberto a viver essa paternidade, enfrentará as dificuldades de viver em uma sociedade que apresenta mecanismos impeditivos para essa vivência. Além disso, o paradigma de paternidade que ele possui está vinculado às experiências que ele teve com as pessoas que exerceram a função paterna junto a ele. Ser um pai autêntico com assinatura de própria autoria, será um desafio.
Do que conheço do meu filho, sei que ele possui condições para desenvolver essa paternidade única, mas também sei que alguns momentos serão dramáticos, pois o peso dos modelos internalizados falarão mais alto e ele se sentirá dividido entre o pai que deseja ser e as figuras paternas que conheceu.
Hoje, Dia dos Pais, primeiro do meu filho, venho aqui prestar minha homenagem a ele e a todos os pais que se propõem a construir o exercício da paternidade de maneira mais autêntica e autoral.
Essa difícil construção, essa invenção de como ser pai, com certeza, vem para desconstruir o paradigma de paternidade que favorece a constituição de tantos pais ausentes na vida dos filhos.
Feliz dia dos pais Leonardo! Feliz Dia dos Pais a todos aqueles que exercem a função paterna!
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Patrícia Dutra, psicóloga, psicopedagoga, mestra em Educação, coordenadora de Projetos da Pasca Piracicaba.