A ética também foi contaminada

José Renato Nalini

 

A Covid19 era algo previsível, mas sua intensidade foi inesperada. O mundo inteiro viu-se ameaçado e a multiplicação de mortes evidenciou que ela não era uma “gripezinha”, menos ainda um “resfriadozinho”.

A resposta do sistema de saúde evidenciou falta de planejamento e de preparo. Embora os planos de vacinação rotineira funcionassem a  contento para doenças sazonais e tendentes à erradicação, eles falharam quanto à urgência de uma imunização de grande porte, que alcançasse os mais de 212 milhões de brasileiros.

Governos subnacionais assumiram o desafio e se destacaram nas respectivas unidades federativas. São Paulo assumiu a liderança com o protagonismo do instituto Butantã, que passou a produzir a vacina Coronavac, elaborada com insumo chinês.

Desde fevereiro de 2020, a vida nacional enfrentou percalços. Quando se pensava debelada a peste, uma segunda onda, ainda mais letal, foi deflagrada. Até julho de 2021, quase seiscentas mil mortes contabilizavam o efeito da praga, sem contar as sequelas dos milhões que sobreviveram, mas que apresentaram quadro grave de consequências de toda a ordem. Dificuldade na deambulação, na respiração, na concatenação das ideias, na recuperação da plenitude sensorial e muitos outros estigmas resultantes da infecção.

É possível afirmar que a humanidade sairá melhor depois dessa grave crise?

A intensidade com que a pandemia atingiu o planeta autorizou o surgimento de expectativas de uma renovação dos costumes e da forma de convívio humano. Afinal, ninguém continuaria igual, após assistir ao morticínio acelerado de tantas pessoas, das quais sequer se conseguiu despedir.

Embora a morte seja fenômeno inevitável, os seres racionais, desde os primórdios da civilização, elaboraram rituais de sepultamento e de luto. A proliferação de óbitos e as medidas impeditivas do contágio forçaram a adoção de um regime excepcional de enterros. Quase que imediatamente após à lavratura do assento de óbito, com pouquíssimas pessoas da família, caixões fechados.

Só o tempo dirá quais as marcas que resultarão dessa perda forçada de parâmetros convencionais.

Um outro fenômeno foi o escancaramento da situação de invisibilidade de legiões de brasileiros, aqueles privados de quase tudo, a partir da dignidade. Excluídos do banquete do capitalismo, informais, desempregados, subempregados, desocupados, essa população aflorou e foi preciso mais do que propiciar auxílio emergencial. Muitas empresas, entidades do Terceiro Setor e pessoas físicas procuraram atenuar a condição de tais semelhantes e a esperança de muitos é de que esse acordar para a filantropia venha a persistir após debelada a doença.

A intensificação da pobreza é um fenômeno evidente. O índice GINI, que se utiliza para avaliar a desigualdade de renda, estava em 0,642, no primeiro trimestre de 2020. No mesmo período de 2021, atingiu 0,674. Sua variação é de 0 a 1 e, quanto mais elevado, maior a desigualdade. Para colaborar, o desemprego cresce, em paralelo com a inflação. Que pune exatamente os mais pobres.

  1. Economia na Previdência com a morte dos idosos
  2. Ideologia nas vacinas
  3. Escolha da vacina
  4. Fura-fila na vacina
  5. Falsificação de vacina
  6. Compra de vacina por preço superior
  7. CPI
  8. Corrupção na construção de hospitais de campanha e aquisição de bens úteis ao combate
  9. Guerra de narrativas

____

José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL); foi presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima