Lexicográfrica

Noedi Monteiro

 

Neologismo criado pelo autor no âmbito e calor do afro-ativismo. Enfoca a dialetação africana da língua portuguesa, sua influência léxica e gramatical.

As contribuições das palavras africanas à formação da língua portuguesa estão presentes como elementos lingüísticos de nossas relações sociais e raciais sem, a merecida percepção cultural.

José Veríssimo (1857-1916) literato nega contribuição afro-lexical ao nosso falar regional salvo as palavras “mocambo” e “muxinga”. Enaltece o elemento africano como comunicador, mais tarde. Renato Mendonça (1912-90) fala de 350 contribuições. Antenor Nascentes (1886-1972) 57. Jacques Raimundo (1889-1959) 309. Aurélio 159. Antônio Geraldo da Cunha (1924-199) 191. Silveira Bueno (1898-1989) filólogo e lexicógrafo. Discorda dos também filólogos João Ribeiro (1860-1934) e Mendonça quanto à contribuição africana à língua portuguesa. Subestima os parcos vocábulos africanos que entraram no léxico, em Portugal.

Conjectura via o prof. Sílvio Elia (1913-1998) nas propaladas influências das línguas africanas na língua portuguesa que para Houaiss (1915-99) confinaram-se apenas ao léxico e pouco provável aos caracteres regionais no Brasil. Emílio Bonvini, lingüística, questiona o uso do termo “influência” aos termos lexicais de origem africana. O repertório corrente africano no século XIX estava quase todo incorporado à língua portuguesa. Mas conceitua-se que os tupinismos tinham maior representatividade na língua literária. Antônio Joaquim de Macedo Soares (1838-1905), lexicógrafo, diz ser menor a contribuição africana que a indígena, para a formação do dialeto brasileiro.

Prof. Segismundo Spina (1921-2012) estudioso de filologia e literatura: “A influência lingüística do negro foi mais profunda que a dos índios”. Alinha-se a Renato Mendonça: “O negro influenciou sensivelmente a nossa língua popular”. Ignorar os estudos das línguas e das religiões africanas manifesta-se Silvio Romero (1851-1914), crítico literário e historiador, foi uma vergonha, para a ciência brasileira. As línguas africanas influenciaram o português falado no Brasil, enfatiza Romero.

Quimbundo, quicongo, umbundo elementos lingüísticos bantus e o iorubá, orbitam os léxicos das Américas. Dialogam com uso, costumes, campos semânticos, verbos, substantivos, adjetivação. Ideias, sentimentos, sensações, vivências, situações sociais, culturais, políticas aos contextos em que circulam.

Aportes bantus em Piracicaba. Apelidos: Kandimba (José de Toledo, 1926-2000), lebre, coelho. Caxito (Maurício Sebastião Rodrigues), animalzinho. Lamba (José Leonaldo de Toledo), tristeza. Janga (João Manoel da Cruz), pequeno. Malumba (João Ernesto dos Santos). Bonga (Daniel Justino da Costa, 1938-1972), rapaz. Dandá (Luís Lourenço do Prado, Charuto e Dirceu dos Santos, 1933-1982), Dirceu Cabeçada. Erva medicinal. Serelepe (Oswaldo Ramos, 1945-2017). Esperto. Zimba (Rubens Ferreira Alves, 1948-2006 e Vitor Camargo). Dança africana. Tango (Douglas Alves). Quilama (Antenor Bonifácio, 1928-91). Sacerdote. Afra (mãe de Marcolino Rocha, 1877-1963). Fubá (Roberto Crispim). Fécula, farinha. Topônimos: Caxambu (batuque). Caxangá (jogos de tabuleiro). Bongue (fortaleza). Rua da Quitanda (Rua XV de Novembro). Feira. Rua do Quilombo (Rua Ipiranga). Vila Maracangalha. Monjolo (bairro rural). Vegetação: Baobá, manacá, kigela, estrelícia, dendenzeiro, acácia, cacto africano. Cultura: Congada, Lundu, Caiumba (soldado). Batuque. Samba, Umbigada (tambu ou ngoma). Quinjengue. Esporte: Capoeira. Antropônimos: Pedro Mina (1810-1900), Joaquina Congo (1839-1900). Antônio Crioulo (1841-76). Negro nascido no continente americano.

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Noedi Monteiro, professor aposentado, mestre em educação, escritor, jornalista, ativista de estudos afro-brasileiros, membro do IHGP

 

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