Pária

Camilo Irineu Quartarollo

 

O ministro Ernesto Araújo disse que “não importa que o Brasil pareça ‘um pária’ no mundo se for para defender a liberdade”. Aliás, pária nem se atreve a falar, perguntar, pertence à casta impura e desprezível, à margem do convívio social e político, subserviente. Liberdade?!

Por ironia, a Covid revela a destruição da diplomacia brasileira, construída a duras penas por Rui Barbosa, Barão do Rio Branco e outros. Somos pária. Afinal, por que tanta aversão aos outros povos e aos chineses?

Hoje a república brasileira está sôfrega, se agarra aos EUA numa idolatria patética. Empresas somem do país e vão deixando para trás galpões monstruosos e vazios, rastros de desempregos como na Ford, Mercedes-Benz, Renner, Yoki, Roche, Nikon, häagen-Dazs, Lush, 3M e outras. Demissões sentidas pelo chão de fábrica, escritórios, nas empresas de limpeza, nas do cafezinho. O povo se vira fazendo bolos, pães, costuras, faxinas, rifas, e qualquer coisa que pode ou jeitinho para não morrer de fome. Voltamos à escravidão urbana, às quituteiras, a biscates, ao subemprego, à vida por um fio.

Em certos países com evasão de montadoras e empresas lançam mão da Conversão Industrial.  Os galpões vazios deixados pelas empresas podem virar fábrica de oxigênio, seringas, gazes, laboratórios, hospitais, escolas, espaços públicos inclusive, numa atividade econômica restabelecida conforme a necessidade local ou mercado excedente.

Em condições de geopolítica e mercados desfavoráveis, países como Cuba lançam mão de soluções caseiras, onde circulam carros e ônibus velhos, mas há os melhores mecânicos de autopeças. Casas antigas e caiadas, mas sem faltar moradias a ninguém. Educação obrigatória. Saúde e tratamento a todos, com vacina própria e números baixos de contágio e mortos.

O Brasil delapida a economia nessa esparrela de vender patrimônios, empresas estratégicas – e a preço de banana, o comprador ficará feliz. O Brasil faz isso e fala de boca cheia, os EUA jamais, a Europa nem pensar e a China dá seu pulo de gato e se firma como potência econômica, adaptando-se com tecnologia aprendida e desenvolvendo as próprias, exportando insumos e componentes dos produtos ocidentais, quando não, o próprio produto final é chinês.

Aqui tantas reformas no congresso, as quais têm o apelido de impopulares! Políticas públicas, sociais, cadê? Lançam mão de políticas “cola-tudo”, ensejam venda de patrimônios, instituições históricas do país como a Eletrobrás, correios, a Caixa Econômica, o Banco do Brasil, o Butantã, a Fiocruz e, pasmem, o SUS! Um desmonte geral.

Com a Covid-19, políticos se “orgulham” dos cientistas brasileiros, dos diplomatas de carreira e do corpo de servidores públicos pelo país na linha de frente, morrendo pelo contágio do vírus e humilhados sob as “granadas” do Guedes – por que tanto ódio ao setor público?!

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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente, escritor independente, autor do livro A ressurreição de Abayomi, dentre outros

 

 

 

 

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