
Erich Vallim Vicente
O 2º Turno da eleição presidencial do Brasil, em 2026, ficará marcado na História do País como a primeira vez que o perdedor no 1º Turno conseguiu virar sobre o adversário. Também ficará registrado por ter consolidado a quarta vitória do presidente Luis Inácio Lula da Silva no pleito, que permanece no Palácio do Planalto como a principal liderança do campo democrático no mundo – se você acha essa constatação exagerada, procure pelos vídeos, da Espanha aos EUA, em que ‘fazer o L’ virou símbolo de resistência à extrema-direita em diversos países.
É ainda impossível ignorar que o 2º Turno de 2026 foi o momento das maiores mobilizações populares do País, com atos em defesa da reeleição de Lula registrados em metrópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, mas também em cidades grandes, médias e pequenas, como Campinas e Piracicaba (para focar em exemplos da região), mostrando uma capilaridade impressionante quanto ao significado não apenas para a vitória eleitoral, mas sobretudo para um resgate de protagonismo popular na condução do País.
Para completar esse caldo de consciência política, é preciso destacar o papel decisivo do grupo de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que, com seu estilo “carismático-estridente”, soube capturar o espírito do tempo que se impôs depois do resultado de 4 de outubro. Daria para analisar pormenores das técnicas utilizadas pelo ‘General Janones’, mas para além de ferramentas tecnológicas e sociais, quero registrar neste artigo a minha experiência como um dos mais de 10 milhões de “soldados do Lula”.
Entrei no Exército do Lula logo na segunda-feira (5), quando o grupo tinha cerca de 300 mil inscritos. Ainda sob a agonia da derrota de um dia antes e buscando vencer o sentimento derrotista que naturalmente se impôs naquele momento, os soldados do Lula passaram a ser convocados para chamar novos combatentes e, mesmo sem acreditar muito que aquilo poderia dar certo, embarquei nesta missão. Qual não foi a minha surpresa que, em poucas horas, o grupo chegou a um milhão de seguidores – naquele momento, foi possível entender que a ação de formiguinha de cada um ali poderia funcionar em grande escala durante a campanha.
Do um milhão de seguidores, a missão passou a ser três milhões, que, também, em alguns dias foi alcançado. Enquanto isso, o General Janones enviava suas missões no grupo que, em geral, eram focadas em impulsionar publicações favoráveis à campanha do Presidente Lula. Aqui, vale um parêntese: há muito tempo eu havia desabilitado minha conta no ‘X’ (antigo Twitter), por entender que ali era um “território perdido”, mas impulsionado pelas missões no grupo do Exército do Lula, reinstalei o aplicativo e voltei a usá-lo. Ali, uma mágica diária acontecia: a cada hashtag solicitada pelo general, em minutos ela estava no ‘trending topics’ (que são os assuntos mais falados no momento dentro da plataforma).
Essa ação específica do X, de levantar hashtags, foi estabelecendo uma relação de unidade do exército. A partir dali, era possível saber que, assim como eu, outras pessoas também estavam atuando ao meu lado, com um objetivo em comum. Essas missões diárias reforçavam o companheirismo de trincheira. O desalento da derrota do 1º Turno passou a se transformar em compromisso de luta. Enquanto isso, a adesão ao grupo só crescia: a meta de cinco milhões já era realidade.
O ápice deste processo de irmandade criado pelo Exército do Lula aconteceria no dia 17 de outubro. Um dia antes, durante um ato público, o General Janones discursou para uma multidão de apoiadores e disse que, naquele momento, nós já havíamos reconquistado as ruas (os atos pipocavam pelo País) e também já havíamos conquistados as redes (as missões diárias eram bem-sucedidas em minutas), faltava, então, reconquistar os símbolos nacionais.
Foi então que o General Janones, de forma muito eloquente, veste a camiseta da Seleção Brasileira de Futebol, um dos símbolos roubado pelos bolsonaristas em seu afã de diferenciá-los como “brasileiros natos”, tentando retirar de seus opositores até mesmo sua nacionalidade. No momento em que vestiu o verde-amarelo, Janones impôs uma nova missão, a mais audaciosa até aquele momento: às 9h da manhã do sábado (17 de Outubro), não é 8h59 e nem 9h01, às 9h todo mundo postaria em suas redes uma foto vestido de verde-amarelo e fazendo o ‘L’.
Se já havia uma unidade entre os soldados do grupo de WhatsApp, neste dia e hora, quando as timelines começaram a ser inundadas por famosos e anônimos vestidos de verde-amarelo e fazendo o L, o sentimento de irmandade se aprofundou: a partir dali, víamos que não estávamos sós e, mais, nos reconhecíamos como companheiros de luta e da missão de reeleger Lula.
Após o sucesso desta ação, General Janones não apenas elogiou a unidade da tropa, mas também disse do seu jeito enfático: “O presidente Lula ganhará a eleição”. Eu confesso que, ressabiado como sempre, achei que isso era mais a empolgação do momento, porém, entenderia mais tarde de onde vinha essa constatação de quem havia liderado o grupo até aquele momento glorioso.
Entramos na última semana de campanha. Quando parecia que o grupo estava consolidado, uma missão a mais: agora, teríamos que chegar a sete milhões de inscritos no grupo. Novamente focamos neste trabalho que, a medida que crescia, ficava cada vez mais difícil – eu mesmo, já não sabia mais quem convidar para entrar no grupo, minha rede de contatos e amigos já havia se esgotado.
Quando o grupo chegou a sete milhões, uma missão ainda mais difícil. O grupo estaria fechado até que fossemos 10 milhões e que teria que ser conquistado antes do debate final entre o Presidente Lula e o candidato adversário, realizado na Globo, a maior audiência do País. Por volta das 19h do dia 24 de Outubro, horas antes do debate, éramos 10 milhões de soldados do Lula.
Vale pontuar que as tentativas da campanha do adversário em derrubar o grupo Exército do Lula, acabou se tornando mola impulsionadora, já que o assunto saiu da bolha da esquerda e passou a estar ao alcance de novos públicos.
Durante o debate na Rede Globo, as missões foram minuto a minuto. A cada corte de vídeo, de postagem no Instagram ou no Facebook, a hashtags se tornando trending topics no X, os soldados seguiram mobilizados para mostrar os momentos favoráveis durante a contenda em rede nacional. A empolgação com as missões mobilizou a tropa a participar da “maior live política da história”, em que o General Janones passou 24 horas ao vivo, com diversos convidados, entre eles o próprio “Marechal Silva” (apelido carinhoso ao Presidente Lula) até a noite do sábado (24), horas antes do início da votação do 2º Turno, realizada no sábado (25).
Na véspera da votação, a última missão e, claro, a mais importante de todas: os soldados deveriam buscar pelo menos mais uma pessoa para votar. Não era apenas convencer alguém a votar em Lula – isso já havíamos feito durante toda a campanha –, mas deveríamos levar alguém que não votou no 1º Turno a ir na urna durante o 2º Turno. Naquela altura do campeonato, os soldados já tinham um compromisso tão profundo e um sentido de unidade e comunhão tão intensos, que a missão nem parecia tão difícil assim, porque já fazia parte daquilo que éramos.
“Se vocês fizerem o que eu estou pedindo, nós ganharemos essa eleição”, repetia o General Janones, com o seu olhar fixo na câmera e dentes cerrados.
Durante o domingo (25), as redes sociais foram inundadas por vídeos de filhos e netos levando seus pais e avôs nas urnas de votação. A abnegação de alguns dos idosos, que mesmo com dificuldade de locomoção, deixaram sua contribuição em defesa da democracia do Brasil, foi o momento mais sublime deste processo eleitoral. Pessoas que há anos não votavam, sentiram a necessidade de ir às urnas.
É evidente que não é possível saber, empiricamente, se essas pessoas foram motivadas por algum dos soldados de Lula, mas o que se criou neste exército da Democracia, que conseguiu deter o avanço fascista em disparar um tiro sequer, foi algo que, daqui para os próximos anos, deverá ser profundamente estudado.
Curiosamente (ou não), o Presidente Lula saltou mais de 10 milhões entre o 1º e o 2º Turno, um número muito próximo da quantidade de soldados alistados em seu exército comandado pelo General Janones. O Presidente Lula aumentou votos em 97% das cidades brasileiras! Foi um verdadeiro levante nacional em defesa dos valores democráticos, em defesa dos programas sociais e das reais necessidades do povo brasileiro. É a mostra de um sentido nacional nunca antes visto neste País.
Deixo esse registro como um dos milhões de soldados do Lula, para que essa experiência, para além da vitória eleitoral, demonstre o quanto a população tem força e capacidade de mobilização; o quanto o poder popular é imperativo na condução do País e na resolução de seus principais problemas. Mais do que resistência, organização política é uma forma coletiva de existência!
Nós existimos! E não só como indivíduos, mas sobretudo enquanto povo!
Viva o povo brasileiro!
Erich Vallim Vicente, jornalista, servidor público da Câmara Municipal de Piracicaba