O Fútil Útil (I)

No início de 2012 três assuntos tomaram conta da mídia se difundindo pelas redes sociais: o naufrágio do Concórdia, um suposto estupro no BBB e uma tal Luiza que fora ao Canadá. Não assisto a Reality Shows e ao me informar descobri que o pai da Luiza havia gravado um comercial de lançamento de um prédio contendo a frase “menos Luiza que está no Canadá”. Por algum motivo isso se tornou um hit na internet.

O jornalista Carlos Nascimento, em 19/01/12 abriu o Jornal do SBT protestando: “não é possível que dois assuntos tão fúteis possam chamar a atenção de um país inteiro” (…) “uma pessoa que ninguém conhece vira uma celebridade da mídia somente porque o nome apareceu milhões de vezes na internet. Luiza já voltou do Canadá e nós já fomos mais inteligentes”, termina sua abertura. Foram colocações inteligentes que nos levam a refletir. Em questão de 24 horas usuários de redes sociais propagavam imagens raivosas contra Carlos Nascimento, o chamando de invejoso, mal-humorado, etc.

Isso reflete algo sério. O que era um valor passou a ser um desvalor. Na sociedade hoje, quanto mais fútil é um assunto, mais ele repercute. É o reflexo de uma sociedade líquida, onde pessoas são descartáveis, parecer ser celebridade é o máximo, mesmo que fugazmente. A velocidade com que tudo acontece é um imperativo da globalização e tudo que é consistente exige um projeto de médio e longo prazo. O fútil passou a ser útil.

Eu comparo o grande amor entre o Criador e a criação ao mesmo amor e fidelidade com o qual Deus une homens e mulheres. Tanto assim que, juntos, eles podem ser criativamente férteis. (Hildegarde de Bingen)

 Eu mandava recadinhos diários para uma pessoa de outro estado de um site de relacionamentos. Gosto de seduzir, sem compromissos. Chateei-me, pois ele me tirou dos favoritos. Recebo muitas cantadas, sou bonita e tenho ótimo nível. Mandei um último e-mail explicando por que não mandaria mais nada. Conversamos muito pelo WhatsApp. Estou me precipitando? Será que ele se assustou comigo? O que houve de errado?

Lucila.

Em relacionamentos iniciados por sites as pessoas têm mais possibilidades simultâneas. Esse dado é precioso a se considerar, pois abre muitas outras hipóteses.

É interessante que você diz gostar de seduzir, sem compromisso. Isso me fez pensar na sedução para sustentar a posição de objeto de desejo do outro que você claramente ocupa nessa relação. Veja que sua queixa se inicia ao se perceber perdendo o lugar de favorita (ou uma das favoritas). A reivindicação dessa posição persiste ao elencar seus atributos de mulher bonita, de nível, sempre cantada, que supõe serem motivos bastantes para ele lhe desejar. Em matéria de sentimentos isso não diz muito.

Já que decidiu se comunicar com um ‘último’ email, tudo deveria acabar aí, não é? Não, não é. Se em algum momento ele entendeu que sua expectativa na relação não seria correspondida (mesmo que isso não reflita a realidade) o afastamento pode ter se iniciado. Havia intenções suas de conhecê-lo ou ser desejada era o suficiente?

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