Duarte Nuno Bastos
No capítulo da vida, entre fazer o certo e fazer o certo reside a maior angústia do ser humano.
É quase um paradoxo, ou, mais precisamente, um dilema. “Fazer o certo” pode significar coisas diferentes: obedecer à regra, proteger alguém, dizer a verdade, evitar dano, seguir a consciência, cumprir um dever. Quando esses “certos” colidem, não existe escolha sem perda. Aí o problema não é encontrar a resposta perfeita, mas decidir qual parte de si vai aceitar ferir.
Talvez o paradoxo seja este: quanto mais sério é o ato, menos certeza absoluta se tem. Ainda assim, é preciso agir. A maturidade ética não é nunca errar; é escolher com lucidez, arcar com a consequência e reparar o que for possível.
Há dias em que a alma pesa antes mesmo de o corpo se mover. Não é dor aguda, não é desespero — é uma névoa fina que se instala sobre as coisas, um cansaço que não vem do esforço do dia, mas do peso acumulado de muitos dias. É a melancolia: essa lucidez silenciosa que enxerga o que passou, o que não voltou, o que o tempo levou consigo sem pedir licença.
E, no entanto, há quem se levante mesmo assim.
Pedro já não sabe mais dizer, com certeza, de onde é. Pergunta impossível, essa — como se a resposta coubesse numa palavra só, num nome de cidade que ele pudesse apontar no mapa e dizer: “aqui, foi aqui que tudo começou, é aqui que pertenço.” Não é bem assim. Pedro viveu em tantos lugares, atravessou tantas fronteiras, dormiu em tantas camas que não eram suas, que as cidades começaram a se confundir umas nas outras, como aquarelas que alguém deixou ao sol e a chuva desmanchou os contornos.
Hoje mora numa cidade que também não é bem “sua” — é apenas onde está, por ora. E quando lhe perguntam a nacionalidade, Pedro sorri, um sorriso cansado mas sincero, e responde: “Planeta Terra.” Não é provocação, nem originalidade fácil. É a única resposta que ainda lhe parece honesta.
Porque Pedro carrega o peso de recomeçar, sempre, em terreno alheio. De aprender de novo onde fica o mercado, que horas fecham as portas, que sotaque usar para não parecer estrangeiro demais. E, junto com esse peso, uma saudade fina, quase imperceptível, que o acompanha como sombra: de lugares que ele nem sabe mais nomear direito, de pessoas que ficaram para trás em cada parada, de versões de si mesmo que foram se perdendo pelo caminho, uma em cada cidade.
Mas há também, em Pedro, uma coragem que ele mesmo raramente percebe. Não a de quem ainda não foi provado pela vida, e sim uma coragem discreta, quase muda: a de quem já sentiu o cansaço nos ossos e mesmo assim escolhe, de novo, desfazer as malas, chegar a mais uma cidade, aprender mais um nome de rua. Criar raízes pequenas e provisórias onde quer que esteja, mesmo sabendo que são raízes de vento. Essa coragem não nega a melancolia, não finge que o cansaço não existe. Ela caminha ao lado dos dois, como quem aceita companhia difícil, mas não se deixa vencer por ela.
Porque há, em Pedro, algo que atravessa todas as cidades sem se perder: servir é o seu grande propósito de vida. E isso — ele descobriu, depois de tantas partidas — não tem lugar. Não fica preso a um endereço, não pertence a uma bandeira, não se mede pelo tempo de residência num país. Mas tem pessoas. E é nelas, e não nos mapas, que Pedro finalmente se reconhece em casa.
Talvez Pedro, depois de tanto ir e vir, tenha entendido algo simples: viver é muito bom. Mas há certas certezas que precisam se desfazer, se encaixar de outro jeito, se transformar — para que, mesmo numa realidade bem ampla, sem âncoras de supostas certezas, o bom humor continue de pé. Não porque as coisas estejam bem, no sentido raso de “bem-estar”. Mas porque há, antes disso, um “bem-ser” — algo que não depende das circunstâncias para existir.
Por isso Pedro nunca despede um amigo com o simples
“esteja bem” ou “stay safe”. Prefere dizer “keep it real” — fique de verdade, seja de verdade. Porque, para ele, ser e estar deixaram de ser sinônimos há muito tempo: ser é essência, é o que permanece; estar é só o lugar onde a essência, por ora, se encontra. E a essência não muda se chove ou faz sol.
Pela mesma razão, Pedro não consulta a meteorologia. O que precisa ser feito, será feito — ou ao menos tentado — a pé ou, se a vida um dia permitir, de Rolls Royce. O clima é circunstância; o propósito, não.
Pedro não pertence a lugar nenhum. E, por isso mesmo, talvez pertença a todos.
Mas quem sabe que sua cidade é a Terra sabe também de uma coisa: seu legado é real. Não está em nenhuma escritura, não tem endereço, não consta em nenhum cartório — mas existe, e existe com mais firmeza do que qualquer título de propriedade. O legado de Pedro é família. É exemplo. É serviço. São filhos e netos — de sangue ou não — que carregam, sem sempre saber, um pouco do caminho que ele abriu para eles.
São pequenos marcos que o dirigem no oceano da vida, deixados não para si mesmo, mas para quem vem depois. Marcos de muito amor, sim — mas também de muita autoridade, construída não pela imposição, e sim pelas escolhas feitas no caminho, nas duas mãos, nos dois pratos da balança: entre partir e ficar, entre servir e descansar, entre o que era mais fácil e o que era certo.
Legado, Pedro diria, é isso: deixar marcos para que quem vem atrás não caia no mesmo buraco em que ele já caiu.
Talvez seja este o retrato mais honesto da maturidade: não a ausência de fadiga ou de tristeza, mas a capacidade de seguir levando-as consigo, sem precisar escondê-las nem ser dominado por elas. Continuar não porque é fácil, mas porque, mesmo cansado, ainda resta em nós algo que insiste em se levantar — e de, uma vez mais, começar. E, ao se despedir, deseja ao amigo: keep it real.
Conclusão: o importante é ter dias vivos.
É aqui que Pedro responde, sem fórmula, ao dilema que abre estas linhas: entre um certo e outro certo, ele escolhe servindo, e serve vivendo. Não há regra que decida por ele; há dias vividos, com as consequências assumidas.
O filósofo Wilhelm Dilthey chamou isso de Erlebnis, a vivência, a experiência vivida. Ele propôs compreender a vida a partir dela mesma, e não apenas por explicações abstratas: “Nós não explicamos a vida através da natureza, mas a natureza através da vida.” Conflitos, escolhas, sentido e dúvida moral só se entendem olhando para a experiência concreta de quem vive.
Por isso, fazer o certo não se resolve apenas com regras lógicas: envolve viver, sentir e assumir as consequências. E Sêneca e Marco Aurélio lembram que os dias são contados, razão a mais para vivê-los bem.
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Duarte Nuno Bastos, Filósofo e Analista de TI