
Das auroras de 1926 às lembranças em 1976, Guilherme Vitti conduz uma viagem que reencontra diferentes períodos marcados pela morte do santo católico
“O menino roceiro foi acordado de madrugadinha pela mãe. Que sono!
– Nada de comer ou beber, ouviu? Só depois da missa, lá na cidade.
Ia à cidade! Que calafrios de alegria… E não iria só. Muitos outros moradores dos bairros próximos, em romaria, rumo à Igreja dos Frades, para festejarem não sabia bem o quê. Algo em relação a São Francisco de Assis, como explicara o frade de barba branca na capela do bairro.
Bonita a madrugada, com o horizonte se alaranjando mais e mais.
Sentia os sapatos apertados nos pés. Pobres dedos acostumados a viver à solta. Que cheirinho gostoso de roupa nova… A mamãe caprichara na Singer barulhenta, por dias seguidos.
Súbito, logo em frente, na lombada do caminho, os faróis de um automóvel, que veio vindo, diminuindo a marcha, para estacar em frente à porta.
Seu Achiles, o chofer do Chevrolet, já foi gritando:
– Pronto, seu Bepi… Vamos indo…
Papai apareceu na porta, saudou-o e chamou para dentro:
– Está na hora, pessoal… É preciso sair na frente dos caminhões dos romeiros, para evitarmos poeira.
Eu estava ainda pasmado, quanto sentei no banco fronteiro do carro. Nossa!… Que riqueza! Iríamos de carro e não de caminhão como os outros. E uma pontinha de orgulho brotou e cresceu no coração do menino caipira.
Estas minhas recordações mais acentuadas do longínquo 1926, quando os frades capuchinhos comemoraram o sétimo centenário da morte de São Francisco de Assis.
Na minha memória, volta e meia, ressurgem trechos da fantástica viagem na poeirenta estrada, entremeados do deslumbramento das luzes no interior da igreja”.
As reminiscências acima foram escritas por Guilherme Vitti em 1976, exatos cinquenta anos depois dos fatos ali narrados, e são a primeira parte do texto “Septigentésimo Quinquagésimo Aniversário Franciscano”. Recordava-se, em 1976, os 750 anos do falecimento de São Francisco de Assis. E agora, cinquenta anos no futuro, quando se completam 800 anos da morte do santo, a série “Achados do Arquivo – Memórias de Um Arquivo” resgata o texto pelo qual Vitti junta suas memórias pessoais aos documentos do Acervo Histórico da Câmara Municipal de Piracicaba.
Abaixo, a continuação do escrito pelo professor:
“Agora, já com prenúncios de corcunda, remexo na papelada do arquivo camarário e encontro ecos que aqueles festejos deixaram nos anais do Legislativo Municipal.
A história se inicia com um abaixo-assinado de 270 pessoas, solicitando à Câmara a mudança do nome da Rua Saldanha Marinho para o de São Francisco de Assis. Está assim redigido:
‘Exmos. Srs. Dr. Presidente e Vereadores da Câmara Municipal de Piracicaba
Nós, abaixo-assinados, moradores da Rua Saldanha Marinho e mais outros, vimos, respeitosamente, pedir a essa distinta Câmara a mudança do nome desta rua, pela de Rua de São Francisco de Assis. É precisamente na época em que os Rvmos. Capuchinhos, representantes da distinta e benemérita congregação religiosa, comemoram a passagem do sétimo centenário daquele santo, que, para ficar como mais uma lembrança das grandes festas que realizarão este mês, é que vimos pedir a mudança do nome desta rua para a do santo S. Francisco. Todos os piracicabanos são testemunhas dos grandes benefícios que estes ilustres missionários capuchinhos vêm realizando nesta cidade, ora mantendo escolas gratuitas para as crianças pobres, ora fundando asilos para meninas órfãs, e, ainda agora, construindo mais um colégio e uma igreja para a propagação e instrução da fé católica, sem enumerar, ainda, muitos outros benefícios e progressos morais e materiais que redundam em proveito da nossa cidade.
Assim esperamos da sábia e criteriosa municipalidade, seja atendido este nosso justo pedido’.
O requerimento, que deu entrada na sessão camarária de 13 de setembro de 1926, foi encaminhado à Comissão de Polícia e Higiene, que assim se expressou em trecho de seu longo parecer:
‘d – que a Ordem de São Francisco de Assis tem-se tornado credora dos mais vivos sentimentos de reconhecimento público, por manter em Piracicaba uma casa de caridade, onde se abrigam dezenas de órfãs, o Asilo Coração de Maria, Nossa Mãe, um curso de instrução primária gratuito, anexo à igreja do Convento dos Frades, tendo ainda, em adiantado estado de construção, um grande prédio destinado à instalação do Colégio São Fidelis, colaborando assim, notavelmente, pelo engrandecimento moral e intelectual da infância desvalida;
e – que a denominação de São Francisco a uma das ruas da cidade, por motivo de ocorrer presentemente a passagem do 7º centenário do fundador da Ordem Franciscana, constitui, não só um meio de celebração dessa data, como também uma homenagem merecida à instituição, que tanto e tão desvelados benefícios vem prestando ao município e à qual a Câmara com prazer se associa;
f – que achando-se o Asilo das Órfãs, como a igreja e o curso de instrução primária gratuito, edificados na rua cuja denominação se requer seja a de rua de São Francisco etc’.
A comissão concluiu apresentando um Projeto de Resolução, aprovado pela Câmara em sessão relâmpago, resultando na disposição legal seguinte:
Resolução nº 386
Artigo 1º – Fica o Prefeito Municipal autorizado a dar o nome de Cristiano Cleopath à atual rua do Salto, o de Saldanha Marinho à atual rua Nova, e o de São Francisco de Assis à atual rua Saldanha Marinho.
Artigo 2º – As despesas decorrentes desta Resolução correrão por conta da verba – Obras Públicas – do orçamento em vigor.
Sala das Sessões, 04 de outubro de 1926.
aa – Dr. José Rodrigues de Almeida – Dr. Coriolano Ferraz do Amaral – José Ferraz de Carvalho – João Bierrenbach de Lima – Eduardo da Costa Sampaio – João Mendes Pereira de Almeida – Dr. Torquato da Silva Leitão – Pedro Krähenbühl.
Eu, João Baptista Vizioli, secretário da Câmara, fiz o presente registro e assino.
João Baptista Vizioli
Promulgada na mesma data e registrada a fls. 27v do Livro 5 do registro de atos da Câmara Municipal’.”
Documento que chama a atenção é o abaixo-assinado, contendo as assinaturas de 270 pessoas que moravam na rua que se pretendia alterar o nome ou tão somente simpatizavam com a proposta. Quem consultar esse documento, anexado a este texto, vai se deparar com sobrenomes que ainda hoje circulam por Piracicaba, possivelmente carregados pelos descendentes daqueles piracicabanos de um século atrás.
A maioria das pessoas, quando passa pelas atuais ruas São Francisco de Assis, Saldanha Marinho e Cristiano Cleopath, não imagina que, antes desses nomes, tinham outras nomenclaturas. A atual São Francisco de Assis era a antiga Saldanha Marinho; a atual Saldanha era a antiga Nova; e a atual Cristiano Cleopath era a antiga do Salto.
As três estão completando 100 anos de quando receberam as atuais denominações. Mas o destaque vai para a Rua São Francisco de Assis, cuja ideia de nome surgiu dos seus residentes de 1926, que, estabelecidos na mesma via que a Igreja dos Frades, acharam por bem homenagear o santo fundador da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.
Neste dia 3 de outubro, quando se relembra os 800 anos do falecimento de São Francisco de Assis e os 100 anos da homenagem ao santo prestada através de uma das principais ruas da cidade, escritos de meio século atrás, em que o homem Guilherme Vitti redige sobre o santo, a igreja, os festejos, também evoca o menino Guilherme das alaranjadas auroras e presenteia a cidade com essa bela incursão em seu relicário de vivências.