Legislativo – Carta conjunta reunirá reivindicações da cidade para reduzir impacto do tarifaço

Ideia é de que o documento reúna colaborações de representantes do Poder Público, de entidades de trabalhadores e do setor produtivo e defenda. CRÉDITO: Rubens Cardia

 Audiência pública, nesta terça-feira, discutiu os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos na economia de Piracicaba

 

A elaboração de uma carta conjunta com dados sobre os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos já verificados na realidade e com as reivindicações de Piracicaba para contribuir com as negociações comerciais que estão sendo conduzidas pelo governo brasileiro foi um dos principais encaminhamentos da audiência pública sobre o tema realizada pela Câmara na tarde desta terça-feira (15). A ideia é de que o documento reúna colaborações de representantes do Poder Público, de entidades de trabalhadores e do setor produtivo e defenda, entre outros pontos, a redução da sobretaxa que incide sobre bens exportados pelo município.

O debate também apontou as necessidades de manter uma agenda técnica com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), de acompanhar os reflexos das tarifas do governo Donald Trump sobre o mercado de trabalho local e de buscar a participação de Piracicaba nas discussões relacionadas ao Plano Brasil Soberano, da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A audiência pública foi realizada por iniciativa da vereadora Rai de Almeida (PT), autora do requerimento 769/2026, com a finalidade de discutir os impactos econômicos, industriais, comerciais, trabalhistas e sociais das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A parlamentar lembrou que o debate é um dos desdobramentos da agenda que representantes de Piracicaba tiveram no BNDES com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, na qual houve o encaminhamento para a realização de uma reunião de trabalho para aprofundar a discussão.

“O tarifaço não é um problema distante. Ele é uma preocupação concreta para Piracicaba e a nossa Região Metropolitana”, afirmou Rai de Almeida, acrescentando que os efeitos ultrapassam as empresas diretamente exportadoras. “Quando uma grande cadeia é afetada, o impacto não para na empresa que exporta. Ele chega ao fornecedor, ao comércio, ao trabalhador e à arrecadação financeira do município.” A audiência pública, destacou a parlamentar, cumpre a função de “não apenas discutir, mas também fazer encaminhamentos e soluções para os problemas”. “Precisamos transformar preocupação em mobilização, informação em estratégia e diálogo em ação”, disse a vereadora.

NÚMEROS – Dados apresentados durante a audiência pública pela secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, Thaís Fornicola Neves, dimensionaram a exposição de Piracicaba ao mercado americano. Entre janeiro e agosto de 2026, o município exportou US$ 1,83 bilhão, dos quais 49,4% tiveram os Estados Unidos como destino.

A concentração é ainda maior quando se observa a composição dessas vendas: 78,4% das exportações piracicabanas aos Estados Unidos correspondem a uma única classificação de produtos, a de máquinas de grande porte —as chamadas “máquinas amarelas”—, que movimentou cerca de US$ 707 milhões no período. Somados também os geradores, as duas categorias representam quase 90% da exposição do município ao mercado americano. “Não são vários produtos; são produtos específicos, dois grandes produtos que representam quase 90% do tamanho da nossa exposição”, explicou.

A secretária diferenciou as medidas tarifárias que atingem esses produtos. As máquinas amarelas estão submetidas à sobretaxa de 25% estabelecida pela Seção 232 americana para derivados de aço. Já a sobretaxa acumulada de 37,5%, decorrente da Seção 301, alcança cerca de 16% da pauta do município destinada aos Estados Unidos. “É aí [nos produtos da Seção 232] que a gente tem que colocar o foco, porque quase 80% da nossa exposição está aqui.”

Segundo Thaís, há 11 países submetidos a uma sobretaxa de 15% para o mesmo tipo de máquina, entre eles Japão, Coreia do Sul, países da União Europeia, Reino Unido e Argentina. A equiparação a esse patamar, defendeu a secretária, precisa estar entre as reivindicações de Piracicaba. “Queremos sair dos 25% para 15%, pelo menos, na Seção 232. Acho que isso nos ajuda muito a ser bem assertivo no nosso pedido.”

Os números apresentados também indicam mudança recente no comportamento das exportações. Entre junho e agosto, os três primeiros meses sob a nova tarifa, houve queda acumulada de 13%. Thaís, porém, ponderou que ainda não é possível atribuir todo o movimento às medidas comerciais, já que os resultados mensais também são influenciados pelo calendário de embarques. “Três meses não bastam para separar o que é calendário de embarque e o que é, de fato, o impacto já estrutural na nossa exportação”, ressaltou.

A relação comercial também ocorre no sentido inverso. Piracicaba importou US$ 554 milhões dos Estados Unidos no período analisado e, segundo a secretária, 41% dessas compras correspondem a itens utilizados na fabricação das próprias máquinas posteriormente exportadas. “No final das contas, os Estados Unidos também estão sendo impactados, porque estamos importando algo que depois vamos vender para eles de novo, já com um preço mais alto”, afirmou.

EMPREGOS – Os possíveis reflexos sobre o mercado de trabalho estiveram entre as principais preocupações manifestadas na audiência pública. Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério do Trabalho e Emprego, trazidos por Thaís mostram que Piracicaba registrou saldo negativo de 395 vagas em julho, primeiro resultado negativo para o mês desde 2021. Ela ponderou, entretanto, que serviços e construção civil foram os setores que mais contribuíram para o resultado e que a indústria respondeu por parcela pequena do saldo negativo. “É uma queda nas contratações e não um aumento de demissões. Então, ainda é muito discreto o número aparecendo diretamente na indústria”, explicou.

No segmento de máquinas e equipamentos, foram registradas 127 contratações a menos em junho e 42 a menos em julho. A secretária classificou a possível relação com as tarifas como “uma hipótese, ainda não uma evidência”, e disse que os próximos dados do Caged serão importantes para verificar se a tendência persiste. “Piracicaba tem uma exposição a US$ 1 bilhão, uma exposição às empresas que representam 10 mil empregos. Os números mostram que a gente tem um risco muito alto de ser impactado e precisa agir rapidamente.”

O vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba e Região, Paulo Afonso de Lima, alertou para os efeitos que uma retração mais intensa pode provocar na cadeia metalmecânica. Segundo ele, 10 mil empregos equivalem a aproximadamente um terço dos cerca de 30 mil trabalhadores da categoria na região. “Se acontecer esse impacto, serão perdidos 10 mil empregos: é um colapso na economia de Piracicaba”, afirmou.

Como uma das ações preventivas, Paulo Afonso destacou a requalificação profissional desenvolvida em parceria com o setor patronal, a Secretaria Municipal de Trabalho, Emprego e Renda, o Senai e a Fumep. “Não adianta você dar um curso e a indústria não absorver”, disse, ao explicar que as capacitações são definidas a partir das necessidades de mão de obra apresentadas pelas empresas.

A gerente regional do Ministério do Trabalho e Emprego em Piracicaba, Gabriela Albuquerque, destacou que os efeitos podem surgir antes mesmo de eventuais demissões. “Além do efeito direto sobre as exportações, o tarifaço gera uma incerteza econômica”, afirmou, ao pontuar que empresas expostas ao mercado americano podem adiar investimentos, rever planos de expansão e reduzir contratações enquanto aguardam maior clareza sobre as condições comerciais.

O secretário municipal de Trabalho, Emprego e Renda, José Luiz Ribeiro, disse que o governo local tem discutido alternativas com o Conselho Municipal de Trabalho e Renda e citou o Programa de Proteção do Emprego, além de parcerias para qualificação profissional. Recursos recebidos por meio do Ministério do Trabalho e Emprego deverão ser usados em ações para qualificar e inserir jovens, mulheres e demais trabalhadores no mercado.

O presidente do Simespi (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, de Material Elétrico, Eletrônico, Siderúrgicas e Fundições de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras), Paulo Estevam de Camargo, ressaltou a preocupação com os efeitos indiretos sobre a cadeia produtiva. Segundo ele, há mais de 40 empresas fornecedoras ligadas aos segmentos atingidos e entre 8 mil e 10 mil empregos diretos relacionados às companhias mais expostas, além dos trabalhadores terceirizados.

Paulo Camargo avaliou que os efeitos mais significativos poderão aparecer no médio e no longo prazos, já que contratos de exportação costumam ter duração maior. “Num primeiro momento, não tem muitos impactos. Mas o que nos deixa preocupados são o médio prazo, os próximos seis meses, o próximo ano”, comentou. O presidente do Simespi defendeu a continuidade das negociações para a redução das tarifas e avaliou positivamente a estratégia do governo brasileiro de evitar retaliações comerciais neste momento. “Não podemos jogar na mesma moeda; temos que conversar”, disse. “Continuar a negociar, a diplomacia brasileira atuando e a política do governo de ir ajudando as empresas que estão sendo afetadas” são, na avaliação do dirigente, os caminhos para enfrentar o atual cenário.

CRÉDITO – Representantes do BNDES presentes na audiência pública apresentaram linhas de financiamento e programas disponíveis para empresas atingidas pelas mudanças no comércio internacional. A gerente da área de Comércio Exterior do banco, Ana Paula Bernardino Paschoini, explicou que a instituição atua na implementação de políticas públicas e no fornecimento de recursos para ampliar a capacidade das empresas brasileiras.

“A questão do tarifaço foi apenas mais uma questão emergencial que o BNDES enfrentou e se colocou de prontidão ao governo”, afirmou. De acordo com Ana Paula, mais de R$ 35 bilhões foram disponibilizados na economia por meio de “medidas rápidas”, diretamente pelo banco ou com o apoio da rede de agentes financeiros. Em Piracicaba, informou, o BNDES mantém mais de 300 operações indiretas ativas e mais de 20 operações diretas com grandes empresas.

Ana Paula também detalhou as medidas do Plano Brasil Soberano e a nova etapa do programa, voltada a empresas atingidas pelas tarifas e outros cenários de instabilidade internacional. Mais de R$ 18 bilhões deverão ser novamente direcionados às empresas para a manutenção das exportações aos Estados Unidos e busca de novos mercados. “O recado mais importante é que nós temos, sim, essas medidas de enfrentamento”, comentou, destacando, ainda, a importância de diversificar os destinos das exportações brasileiras.

O gerente do Departamento das Indústrias de Bens de Capital e Consumo, Comércio e Serviços do BNDES, Rafael Passos Dickie, apresentou outras possibilidades de financiamento, entre elas o “BNDES Mais Inovação”, destinado a pesquisa e desenvolvimento, transformação digital e investimentos pioneiros na indústria, além de linhas para modernização, aquisição de equipamentos e projetos relacionados à indústria verde.

Rafael também orientou as empresas a verificarem diretamente sua elegibilidade aos programas e buscar os agentes financeiros. “As empresas têm que ser bastante proativas, procurar seus agentes financeiros de relacionamento, colocar as informações claras e deixar seus cadastros sempre atualizados para não perder a oportunidade de obter um apoio financeiro”, explicou.

Ana Paula colocou o BNDES à disposição para uma nova agenda com o município. “Podemos marcar de uma forma bem célere uma reunião técnica, com os times das áreas que forem necessárias para trazer as informações”, disse. Ela também apontou a possibilidade de participação da ApexBrasil para auxiliar na capacitação das empresas para novos mercados.

CARTA DE PIRACICABA – A audiência pública teve como principal encaminhamento a proposta de reunir as reivindicações em um documento construído conjuntamente. A secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, Thaís Fornicola Neves, defendeu que a carta seja feita “a muitas mãos”, utilizando os dados consolidados pelo município e pelas entidades empresariais para direcionar as negociações. Apontamentos feitos pela deputada estadual Professora Bebel Noronha (PT), presente na audiência pública, devem servir como base para a redação da carta a ser encaminhada aos negociadores do governo brasileiro que dialogam com o lado americano.

Entre os pontos discutidos para a atuação conjunta estão a identificação precisa dos produtos de Piracicaba atingidos pelas medidas, a defesa da redução de 25% para 15% da sobretaxa sobre as máquinas enquadradas na Seção 232, a proteção das pequenas e médias empresas que integram as cadeias de fornecedores, a diversificação dos mercados e o acompanhamento permanente dos efeitos sobre exportações e empregos. “Vale a pena nos juntarmos para, de fato, fazer essa carta e ser bem assertivo no nosso pedido”, afirmou Thaís. Para ela, a construção conjunta do documento permitirá “direcionar as negociações” a partir dos setores nos quais está concentrada a exposição de Piracicaba.

Rai de Almeida sintetizou três encaminhamentos ao encerrar a audiência pública. O primeiro foi reafirmar a realização de uma reunião presencial com representantes do BNDES e da ApexBrasil. O segundo, elaborar a carta conjuntamente, incorporando contribuições das instituições participantes e dados que fundamentem as reivindicações do município. E o terceiro, buscar a inclusão de Piracicaba nas discussões relacionadas ao Brasil Soberano.

Também participaram da audiência pública a vereadora Silvia Morales (PV) e pessoas ligadas a instituições do setor produtivo e ao mercado de trabalho.

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