Ricardo Frias Caruso
O mercado internacional de metais preciosos inicia agosto em uma situação contraditória. De um lado, ouro e prata enfrentam juros elevados, dólar forte e investidores cautelosos. De outro, continuam sustentados por compras institucionais, incertezas geopolíticas, procura industrial e uma oferta que não cresce na mesma velocidade do consumo.
Agosto poderá, portanto, ser um mês de forte oscilação, mas também de boas oportunidades.
Ao final de julho, o ouro permanecia próximo de US$ 4 mil por onça-troy. Depois de meses de correção, mostrou dificuldade para retomar a alta, mas também resistiu a quedas mais profundas. Para parte dos analistas, essa estabilidade pode indicar um novo piso.
A prata encerrou o mês próxima de US$ 60 por onça. Embora algumas instituições tenham reduzido suas projeções, permanece o déficit estrutural, quando o consumo supera a produção disponível.
Ouro: entre os juros e a busca por segurança
O principal obstáculo para o ouro continua sendo a política monetária dos Estados Unidos.
Quando os juros americanos permanecem elevados, os títulos públicos tornam-se mais atraentes. Como o ouro não paga juros nem dividendos, parte dos investidores prefere aplicações remuneradas. Juros altos também fortalecem o dólar, tornando o metal mais caro para compradores de outros países.
Essa combinação limitou a recuperação do ouro nas últimas semanas de julho. Entretanto, o metal continua sendo procurado como proteção diante de guerras, conflitos comerciais, endividamento público e instabilidade financeira.
Bancos centrais, fundos e grandes investidores seguem interessados, principalmente quando os preços recuam. A Tether, empresa ligada aos ativos digitais, aumentou suas reservas em 14 toneladas no segundo trimestre, mostrando que até companhias associadas às criptomoedas recorrem ao ouro como reserva patrimonial.
O que esperar do ouro em agosto?
A perspectiva mais provável não é de uma alta contínua. Agosto poderá alternar recuperação e realização de lucros.
Dados mais fracos da economia americana, recuo da inflação ou sinais de redução dos juros poderão favorecer o ouro. Emprego forte, novas pressões inflacionárias ou declarações mais duras poderão provocar quedas.
Para o consumidor brasileiro existe ainda o câmbio. Mesmo que o ouro fique estável em dólares, uma valorização da moeda americana poderá elevar sua cotação em reais. No Brasil, o preço resulta da combinação entre o valor da onça e a taxa de câmbio.
Prata: maior risco e maior potencial
Se o ouro é conhecido pela preservação patrimonial, a prata é marcada por movimentos mais intensos.
Ela é, ao mesmo tempo, metal precioso e matéria-prima industrial, utilizada em painéis solares, eletrônicos, veículos, medicina e telecomunicações. Essa demanda oferece sustentação, mas também a torna mais sensível à economia mundial. Se a atividade desacelerar, pode sofrer; se houver recuperação e expansão da energia solar, a reação pode ser rápida.
Alguns bancos reduziram suas metas de preço para a prata. Ainda assim, o desequilíbrio entre oferta e demanda permanece. Grande parte da produção é obtida como subproduto da mineração de cobre, chumbo e zinco, o que impede uma expansão imediata da oferta quando os preços sobem.
A prata poderá cair em agosto?
Sim. Depois das fortes valorizações recentes, uma nova rodada de realização de lucros não seria surpreendente. A região dos US$ 60 por onça representa uma barreira psicológica importante, e a prata costuma exagerar tanto nas altas quanto nas baixas.
Mas a mesma volatilidade que assusta também cria oportunidades. Alguns analistas consideram que ouro e prata podem estar formando uma base de preços antes de setembro. Nessa leitura, a movimentação lateral atual pode ser uma fase de acomodação antes de possível retomada.
A prata poderá apresentar quedas pontuais, mas a demanda industrial, a transição energética e as limitações da oferta mantêm seu interesse no longo prazo.
O que isso significa para joias e consumidores?
Para quem pretende adquirir joias, agosto poderá oferecer boas janelas de compra.
Durante períodos de correção ou estabilidade, a matéria-prima deixa de subir com a mesma velocidade das grandes arrancadas. Isso permite pesquisar com tranquilidade e encontrar peças abaixo do custo futuro de reposição.
Em joias usadas, antigas ou de leilões, as oportunidades podem ser ainda maiores. Muitas são oferecidas principalmente pelo peso do metal, sem incorporar por completo fabricação, desenho, raridade ou tradição. Por isso, devem ser avaliadas por teor, peso, conservação, pedras e possibilidade de reutilização.
Na Joias Caruso, que acompanha esse mercado há quase um século, as oscilações são vistas não apenas como risco, mas como parte natural do negócio. Momentos de queda costumam favorecer a reposição de estoques, a compra de joias usadas e a formação de oportunidades para os clientes.
Uma joia de qualidade reúne valor material, trabalho artesanal, beleza e possibilidade de revenda. Seu metal pode ser reaproveitado, transformado ou novamente comercializado, fortalecendo a economia circular.
Agosto exigirá cautela, não imobilidade
O ouro inicia o mês defendendo uma região importante. A prata, embora mais volátil, continua apoiada por demanda industrial e limitações de oferta.
Novas quedas não podem ser descartadas se o dólar e os juros americanos permanecerem fortes. Entretanto, seria precipitado interpretar toda correção como o fim do ciclo de valorização.
Para o pequeno comprador, a estratégia mais prudente é evitar decisões impulsivas. Em vez de tentar descobrir o ponto exato de mínima, pode ser mais razoável comprar de forma gradual, escolhendo peças de qualidade, procedência conhecida e preço compatível com o metal contido.
Ouro e prata continuarão oscilando. Mas a história mostra que, justamente nos momentos de dúvida, surgem algumas das melhores oportunidades para quem consegue olhar além das cotações do dia.
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Ricardo Frias Caruso é engenheiro civil, advogado, empresário, joalheiro e gemólogo. Integra a terceira geração da Joias Caruso, fundada em Piracicaba em 1930, e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba — IHGP.