A Internacional Reacionária mira o Brasil de novo

Dorgival Henrique

 

Muita gente acha que o 8 de janeiro de 2023 foi um capítulo encerrado: os mandantes foram julgados, Bolsonaro está condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, e a condenação já transitou em julgado. Mas o golpismo não morreu naquele dia — ele apenas trocou de estratégia. E, dessa vez, não age sozinho dentro do Brasil: age em rede, com sócios internacionais.

Cientistas políticos já deram nome a essa engrenagem: Internacional Reacionária. O termo nasceu para descrever Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, que fundou em Bruxelas, em 2018, uma organização para unir partidos nacionalistas europeus. O mesmo método hoje conecta lideranças em continentes diferentes — não por acaso, mas por conveniência mútua: cada uma ajuda a outra a enfraquecer a Justiça, a imprensa e as urnas que as ameaçam, a Democracia enfim.

Nessa engrenagem, Milei não é apenas um convidado especial: é o ventríloquo de Trump na América Latina. Fala o que Washington não pode dizer sem constrangimento diplomático, e faz isso em território alheio, atacando a Justiça e o presidente de outro país como se estivesse em casa. Trump pressiona o Brasil com sobretaxas e gestos diplomáticos hostis; Milei empresta o corpo e a voz para dizer, em espanhol, o que o Departamento de Estado prefere sussurrar em inglês.

Quem abriu a porta para Milei cumprir seu papel espetaculoso e nefasto em território brasileiro foi Flávio Bolsonaro, ao convidá-lo para a convenção do PL que o ungiu a candidato à presidência da República. E foi secundado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que recebeu Milei no Palácio dos Bandeirantes e o condecorou com a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do Estado — cerimônia que a Revista Fórum descreveu, em reportagem sobre o encontro, como parte de um “encontro para reforçar aliança extremista”. Foi ali, sob o selo oficial do governo paulista, que o presidente argentino atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, provocando uma crise diplomática. Tarcísio não foi espectador: emprestou a estrutura do Estado para blindar de legitimidade institucional um ataque à soberania brasileira.

O poeta Castro Alves, em “O Navio Negreiro”, já advertia sobre o destino de uma bandeira traída: “Auriverde pendão de minha terra, / que a brisa do Brasil beija e balança […] / Antes te houvessem roto na batalha, / que servires a um povo de mortalha!” Bolsonaro fornece a candidatura — a de Flávio, seu filho, hoje vitrine da família na corrida presidencial. Milei empresta a voz. Tarcísio empresta o palácio. Netanyahu, notório genocida, empresta o modelo de blindagem contra a Justiça. Cada um cumpre sua parte na mesma engrenagem.

O que está em jogo não é só o resultado de outubro. É a autonomia do país. Por isso, é preciso nomear o problema para poder enfrentá-lo: golpismo hoje não usa fuzil nem baioneta, usa medalha, sobretaxa e discurso importado. Denunciar essa Internacional Reacionária — e quem, dentro do Brasil, abre a porta e estende o tapete vermelho para ela — é tarefa de todo eleitor que valoriza a soberania nacional.

 

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Dorgival Henrique, professor aposentado

 

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