O BAILÃO DA HISTÓRIA 

Primeiro de Agosto. Tem cidade que comemora aniversário com bolo. Piracicaba prefere baile. A Noiva da Colina veste sua melhor roupa, reúne seus cerca de 420 mil convidados e entra no salão com a elegância de quem já viu muita música boa… e muito maestro desafinar.

Em 259 anos, dançou valsa, samba, moda de viola e até ritmos que ninguém conseguiu entender. Recebeu aplausos, flores e alguns “pisões” daqueles. Mas cidade forte faz assim: sacode a poeira, ajeita o vestido e volta para a pista.

Nada no universo fica parado. A Terra gira, o Sol marca as horas, o Rio Piracicaba segue seu caminho e as paineiras mudam de roupa conforme a estação. Quem para perde o compasso.

Cidade também. Administração que enrola acaba dançando, e quem paga a banda é sempre o povo.

Lá no canto tem o time do Nhô Quim, há um cochicho entre:

Cáxara de Fórfe, Cúspere de Grilo, Bícaro de Pato, Ásara de Barata, Nhéque de Portêra, Suvaco de Cobra, Sem Óio de Bréque, Ócúlos de Raiban…

O Cáxara de Fórfe pergunta:

— Cumpadi… ocê viu o home?

— Vi.

— Prometeu balé… tá pareceno casamento de siri.

O Cáxara sorri:

— Pior é nóis pagá a banda…

E todos caem na risada. O humor piracicabano sempre soube criticar sem perder a leveza.

E o sotaque faz parte da festa.

— Vamo armoçá?

— Pega o tarco.

— Óia a arface!

Nesse embalo entra em cena o XV de Novembro. Nem toda partida termina em goleada, como nem toda administração termina em aplausos. Tradição ajuda, mas não resolve. É preciso planejamento, organização, união e trabalho. Cidade nenhuma conquista o campeonato do desenvolvimento apenas no grito da torcida.

Quem é de fora estranha. Quem é daqui reconhece um pedaço da própria história.

Enquanto isso, o Rio Piracicaba continua correndo. Já viu tropeiros, usineiros, pescadores, estudantes, artistas, prefeitos, vereadores e candidatos. Nunca interrompeu seu curso por causa da política. Apenas ensina que água parada cria lodo; cidade parada cria atraso.

O Ásara de Barata pergunta:

— Cumpadi… será que agora o baile engrena?

O Suvaco de Cobra responde:

— Música bonita inté que tem. Quero vê num desafiná depois da primeira dança…

Promessa de campanha é igual música de baile: algumas ficam na memória; outras acabam antes do refrão.

Piracicaba cresceu porque muita gente acertou o passo: governantes que deixaram boas marcas, trabalhadores, empresários, agricultores, professores, artistas e famílias que construíram, geração após geração, uma cidade admirada.

Agora surge uma ideia diferente: pensar Piracicaba não apenas para a próxima eleição, mas para os próximos vinte anos. Há quem ache exagero.

— Vinte ano? Num consiguimo arrumá a rua da esquina!

A piada diverte, mas também alerta. Quem vive apagando incêndio nunca planta árvore. E quem não planta hoje sentirá falta da sombra amanhã.

Planejar não significa esquecer saúde, educação, segurança, moradia, trânsito ou enchentes. Significa resolver o presente sem abandonar o futuro.

Administrar uma cidade é reger uma orquestra. O prefeito levanta a batuta, os secretários afinam os instrumentos, os servidores fazem a música acontecer e a população compra o ingresso mais caro de todos: os impostos.

Quem paga não quer ensaio.

Quer transparência.

Quer respeito.

Quer resultado.

Na época das eleições, o salão se enche de novos dançarinos. Uns mostram equilíbrio. Outros tropeçam antes da primeira música. O tempo, porém, é o único jurado que nunca erra a nota.

Se olhar vinte anos à frente for um compromisso verdadeiro, vale apostar. Quem planta um jequitibá sabe que talvez não aproveite sua sombra, mas planta pelos filhos, pelos netos e por quem ainda vai nascer. É assim que administrações viram legado.

Mas planejamento sem trabalho é baile sem música. E discurso sem resultado é sanfona sem fole.

No fim da festa, o Cúspere de Grilo pergunta:

— Cumpadi… a Noiva da Colina já levô um mundaréu de pisão, né?

O Nhêque de Portera sorri:

— Levô… mais nunca saiu da pista. É por isso que continua bunita.

Os governantes passam. Os partidos trocam de par. As eleições terminam. Mas a Noiva da Colina continua dançando.

Que Piracicaba celebre seus 259 anos com alegria e sabedoria. Que os “pisões” da política sejam menores que os passos do desenvolvimento. Que a transparência seja a partitura, o respeito seja o compasso e o bem comum seja a música.

E que, quando chegar o aniversário de 279 anos, o Rio Piracicaba continue correndo e possa dizer à Noiva da Colina:

— Dançou bonito… porque nunca parou de aprender.

 

Walter Naime

Arquiteto-urbanista

Empresário.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima