Ainda somos colônia com rótulo de soberania?                      

Walter Naime

Brasileiro gosta de duas coisas difíceis de largar: café quente e esperança requentada. A esperança principalmente em época de eleição, quando a soberania nacional sai do armário, toma banho, passa perfume e sobe no palanque como se fosse estrela principal da festa.

É um espetáculo bonito.

Os candidatos falam em independência nacional, respeito internacional, defesa do país, desenvolvimento soberano e futuro grandioso. O sujeito escuta aquilo e pensa: agora vai.

Passa a eleição e a soberania volta para dentro da caixa, junto dos santinhos, das bandeiras e das promessas que ficaram esperando a próxima temporada.

Porque a verdade é que a soberania brasileira parece aquele parente rico que a família vive citando, mas ninguém nunca vê.

Estamos vivendo no grande campeonato mundial do “quem pode mais chora menos”? Parece que sim. Antigamente colonizador chegava de navio, espada na cintura e bandeira na mão. Hoje chega de terno, carregando contratos, taxas, juros, tecnologia, aplicativos e reuniões de mercado.

Mudou a embalagem; a mercadoria continua parecida.

Mas o que é ser colonizado?

Muita gente pensa que é perder território. Nem sempre. Às vezes você continua com bandeira, hino, Congresso, ministérios e cerimônias cheias de autoridades. O problema é descobrir que a coleira ficou invisível.

Porque coleira invisível é elegante.

Os antigos colonizadores procuravam ouro, terras e riqueza. Os modernos procuram influência, recursos estratégicos, mercados e poder político. A fome mudou de roupa, mas continua comendo igual.

O Brasil já andou por quase todos os caminhos possíveis. Veio reinado, veio Império, veio República. Vieram oligarquias, golpes, governos fortes, ditaduras, democracia e promessas de redenção nacional entregues em suaves prestações eleitorais.

A República chegou falando bonito. Liberdade, participação popular, cidadania.

E o brasileiro respondeu:

— Que maravilha! Onde assina?

Assinou.

Até hoje procura as letras pequenas do contrato.

A República brasileira seria uma fachada?

Talvez fachada seja exagero. Digamos que seja uma reforma eterna. O andaime está montado faz décadas, a tinta é trocada de tempos em tempos e sempre aparece alguém dizendo:

— Agora a obra termina.

Nunca termina.

E essa estrutura custa caro. Muito caro. Mantemos ministérios, diplomatas, representações internacionais, instituições e toda uma máquina funcionando. Tudo em nome da democracia.

E democracia é uma coisa curiosa: continua sendo uma das melhores invenções humanas, mesmo quando os seres humanos insistem em vir com defeito de fábrica.

No cenário internacional existe outra curiosidade.

A ONU nasceu para impedir que o mundo resolvesse tudo na pancada. A intenção era ótima. O problema é que a política internacional frequentemente funciona como partida de futebol em que alguns jogadores entram em campo carregando a bola, o apito e o regulamento.

Direitos humanos entram no discurso pela porta da frente e às vezes saem pelos fundos quando interesses econômicos resolvem aparecer.

É triste, mas geopolítica não costuma fazer caridade.

E aí aparece a pergunta que ninguém gosta muito de fazer: o que sustenta a soberania de um Estado?

Economia forte, tecnologia, instituições sérias, educação, estabilidade e capacidade de defesa.

Porque existe uma língua universal no planeta: poder.

Quando a diplomacia funciona, o mundo sorri para fotografia.

Quando falha, alguns lembram onde deixaram os mísseis.

Duro admitir isso, mas soberania sem capacidade de proteção corre o risco de virar discurso de cerimônia.

Chegamos então à velha receita nacional do “aceita que dói menos”.

Talvez esteja errada.

Talvez o país precise trocar por outra:

“Aceitar dói menos no começo. Depois a conta chega.”

A moral desta história é simples: trocar de colonizador é igual trocar a marca da coleira. O couro muda, a cor muda, o fabricante muda.

Mas continua sendo coleira.

E talvez a pergunta nunca tenha sido quem vai mandar na gente.

Talvez seja quando aprenderemos a andar com as próprias pernas.

 

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Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário.

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