Congratulações – Homenagem exalta trajetória de militante negro aos 91 anos

José Mariano foi homenageado pela Câmara no último domingo (24)

 

Defensor do legado sociocultural e histórico da Igreja de São Benedito, José Mariano foi saudado por amigos, familiares e admiradores, ao receber voto de congratulações

 

A Câmara Municipal de Piracicaba homenageou José Mariano pelos seus 91 anos de vida e pelos serviços prestados à população, especialmente à comunidade negra de Piracicaba. A homenagem ocorreu por meio do requerimento 543/2026, aprovado, durante a 27ª Reunião Ordinária, realizada na última segunda-feira (18). A propositura foi uma iniciativa do vereador Wagner de Oliveira (PSD), o Wagnão, e das vereadoras Rai de Almeida (PT) e Sílvia Morales (PV), do mandato coletivo A Cidade é Sua.

A entrega da honraria aconteceu na tarde de domingo (24), no salão de eventos do Lar dos Velhinhos. A cerimônia foi conduzida pela assessora parlamentar Elaine Salvador, com apoio do jornalista Martim Vieira Ferreira. O espaço reuniu familiares, amigos e admiradores da trajetória de José Mariano. Além da homenagem, a comemoração pelos 91 anos contou com bolo, salgadinhos e apresentação musical do grupo do Mestre Geninho, acompanhado pelo Mestre Gabriel ao som do berimbau.

Emocionado, José Mariano agradeceu pelas homenagens e pelo apoio recebido. “Eu agradeço primeiramente a Deus e a todos vocês pelo que estão fazendo comigo. Falo isso do fundo do meu coração. Olha que alegria, minha filha, minha neta, meu genro. O coração não aguenta mais. Muito obrigado”, declarou.

O documento aprovado pela Câmara relembra a trajetória de José Mariano, neto de escravizados e defensor da preservação da memória histórica e cultural da população negra em Piracicaba. Entre as causas defendidas por ele estão a valorização da Irmandade e da Igreja de São Benedito e a preservação da memória da antiga área do cemitério do negro, localizada na praça Jorge Tibiriçá, onde atualmente funciona a Escola Estadual Moraes Barros, na região central da cidade.

José Mariano nasceu em 20 de maio de 1935, em Saltinho. Filho de Graciano Mariano e Maria do Carmo Barbosa, cresceu na Fazenda Sertãozinho e depois mudou-se para a Fazenda Canadá, onde mais tarde surgiu a Usina Santa Helena. Trabalhou na roça, no cafezal e no canavial. Foi nesse período que constituiu família, casando-se e tendo filhos e netos.

Até hoje, José Mariano mantém a atuação em defesa do legado negro. Ele afirma seguir o exemplo do pai, que integrou a Irmandade do Santíssimo, em Saltinho, durante a época do Padre Oscar. Mariano costuma recordar com carinho os ensinamentos e experiências vividos naquele período.

Ao chegar a Piracicaba, reforçou sua atuação em defesa da memória negra da cidade. Entre os temas que passou a defender estão a preservação da Capela de São Benedito e da área da praça Jorge Tibiriçá. Segundo ele, a região central formada pelas ruas do Rosário, Treze de Maio, Alferes José Caetano e São José possui ligação histórica direta com a população negra e escravizada desde 1824, período da construção da capela e do antigo cemitério destinado aos negros escravizados sob responsabilidade da Irmandade de São Benedito.

Em uma mensagem recente sobre o legado deixado às próximas gerações, José Mariano declarou: “O que eu sou? São vocês que me fazem falar”. Ele também citou a construção da Capela Nossa Senhora do Rosário, em 1824, que posteriormente se transformou na Capela de São Benedito. Mariano lembrou ainda que, em determinado período da história, o local chegou a funcionar como matriz da cidade durante a reforma da igreja principal.

José Mariano também menciona a antiga Funerária Beneditina, ligada à Irmandade de São Benedito, responsável por receber corpos vindos de outras cidades. “A gente fica lendo, horas e horas, e vê que ainda hoje a cidade marginaliza o negro”, afirmou.

Ele destacou ainda que abraçou a causa de São Benedito “de coração” e relatou ter estado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em tratativas com a deputada estadual Leci Brandão, que teria manifestado apoio à causa.

José Mariano também falou sobre a importância da Medalha Zumbi dos Palmares, recebida da Câmara Municipal. “Vocês precisam fazer mais, porque nesta Casa de Leis sumiram com o livro de São Benedito, dizendo que a igreja não existia”, declarou. Segundo ele, chegou a permanecer por mais de duas horas em São Paulo para comprovar o histórico da Igreja de São Benedito em Piracicaba.

Durante a homenagem, Mariano também questionou as tentativas de silenciá-lo e voltou a defender a criação de um Memorial Negro em Piracicaba, com apoio de Leci Brandão. Segundo ele, a população negra teve papel fundamental na construção de Piracicaba, de São Paulo e do Brasil.

Ao final, lembrou que a Catedral da Sé, em São Paulo, foi construída por negros escravizados. “Os portugueses escravizaram o negro. Tenho que falar o que sinto. É duro. Ponham nos seus corações e falem, vamos dar as mãos. Sou neto de escravo e vi o quanto minha avó sofreu”, concluiu.

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