Ainda sobre a religiosidade dos antigos romanos

 

Armando Alexandre dos Santos

 

 

Como destacamos no artigo anterior, a religiosidade romana se caracterizava por seu acentuado antropomorfismo: suas divindades não eram representadas como idealizações de modelos de perfeição, mas como arquetipizações de homens e mulheres com as qualidades e os vícios que lhes são próprios.

Não só os deuses eram representados com os vícios humanos, mas também homens carregados de vícios recebiam honras divinas (é o caso dos Césares) e até mesmo coisas materiais. Não se pode esquecer que até mesmo a Cloaca Máxima, o esgoto que recolhia os dejetos da cidade de Roma e os lançava ao Tibre, recebia honras de divindade no Panteão!

Montalembert, na introdução que escreveu à vida de Santa Isabel da Hungria, defendeu a Igreja Católica da acusação que lhe faziam muitos intelectuais do século XIX, de ter constituído com as vidas dos Santos uma mitologia própria, análoga à dos pagãos antigos. Montalembert dizia que eram situações radicalmente diversas, pois na mitologia pagã os deuses eram revestidos dos piores vícios humanos, enquanto que nas hagiografias cristãs homens e mulheres eram elevados à mais alta perfeição moral, pois tinham como meta a realização do mandamento divino: “Sede perfeitos como vosso próprio Pai celestial é perfeito”.

Da concepção de deuses cheios de vícios humanos derivava, também, uma quase total ausência de moral, no sentido cristão do termo, ou seja, a ideia de um ordenamento das coisas decorrente de uma Lei Natural, infundida por Deus no coração humano, da qual decorria a liceidade ou iliceidade dos atos humanos, e da qual deve também derivar todo o Direito positivo dos povos.

Pio XI declarou, na encíclica “Mit brennender Sorge”, na qual condenou o Nazismo, que o Direito Natural é aquela lei impressa pelo próprio dedo do Criador na cera virgem do espírito humano, e que a consciência de todo homem, por mais primitivo e rude que seja, sempre é capaz de discernir. Essa ideia, fundamental na ordenação moral e até mesmo jurídica dos povos cristãos, pura e simplesmente não existia entre o comum dos romanos – se bem que traços dela já estivessem presentes no pensamento de alguns filósofos estoicos.

Muito correlata com isso era a ausência, entre os latinos, da crença num destino eterno dependente do bom comportamento na vida atual. A ideia de prêmio ou castigo eterno não estava presente na religiosidade dos romanos.

Outra coisa a destacar na religiosidade romana é a presença muito forte da magia, da superstição, em outras palavras, da prática de atribuir poderes preternaturais ou milagrosos a ritos ou a objetos sem relação razoável e racional de causa e efeito. Os romanos discerniam entre uma magia benéfica, mais relacionada à filosofia e, como não podia deixar de ser, à utilidade das pessoas, e a magia maléfica, que era até mesmo punível criminalmente.

Destaco ainda o caráter relativista da religiosidade romana. A grande surpresa que tiveram os romanos com os cristãos foi ao saberem que eles se recusavam a aceitar que seu Deus entrasse no Panteão, ao lado dos outros todos. Esse exclusivismo antirrelativista dos cristãos chocou profundamente o espírito dos romanos.

Igualmente a caridade, o amor ao próximo, o preceito de perdoar e amar os inimigos, tudo isso era incompreensível para os romanos. A um povo adorador do sucesso humano, parecia também incompreensível adorar, como Deus, a um Homem fracassado, que havia terminado sua vida pregado numa cruz…

O relacionamento fraternal entre os cristãos, mesmo entre senhores e servos, era algo que os pagãos não conseguiam entender. Como também era-lhes incompreensível a dignificação da mulher, muito mais notória entre os cristãos do que entre os pagãos. O princípio da recirculação, ensinado por São Justino e Santo Ireneu, no famoso paralelo entre Eva e Maria Santíssima, mostra o papel importantíssimo da Mulher na Redenção da humanidade, corrigindo de modo sublime a falta inicial de Eva.

Entre os pagãos, mesmo filósofos e ilustrados, o cristianismo era, repito ainda uma vez, incompreensível. Marco Aurélio, o grande filósofo célebre por sua sabedoria e estoicismo, ensinou que dar esmola a um pobre é ato indigno e cruel. Indigno, porque o homem digno não se pode permitir sentimentos aviltantes de piedade; cruel, porque, se alguém é pobre, é porque os deuses o estão castigando, e aliviar sua pobreza é prolongar seu sofrimento; mais vale deixá-lo logo morrer à míngua!

O mesmo princípio valia, no paganismo, para os doentes. O primeiro hospital, no sentido que atribuímos a essa palavra, foi instituído em Roma por uma dama cristã de nome Fabíola, que inspirou o célebre romance homônimo do Cardeal Wiseman. Antes disso, os doentes, mesmo ricos, eram abandonados e morriam sem confortos ou tratamentos especiais.

Enfim, eram duas cosmovisões, duas “Weltanschaung” diversas que se confrontavam, a cristã e a pagã. A oposição não poderia ser mais completa.

 

 

 

(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

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