Armando Alexandre dos Santos
Uma das características mais marcantes da religiosidade praticada na antiga Roma pagã, em contraposição com o cristianismo, era o seu caráter estritamente ritualístico. Como notam todos os historiadores que se dedicam ao estudo da Roma Antiga, a observância escrupulosa dos ritos sacrificais era extremamente valorizada, atribuindo-se infelicidades e catástrofes a falhas ou omissões no cumprimento de praxes rituais.
Os antigos romanos eram excelentes administradores, grandes construtores, geniais governantes. Nessas matérias eram insuperáveis. Ainda hoje vemos na Europa, em muitos lugares, pontes, viadutos e outras construções romanas perfeitamente conservadas e em uso constante. Lembro que na saída de Madri para a França, numa autoestrada moderníssima, há em determinado ponto do caminho uma placa singular: “Automóveis: seguir adiante. Caminhões e veículos pesados: desviar à direita e passar pela ponte romana”.
Sim, é isso mesmo! A ponte romana, velha de quase dois milênios, suporta melhor os veículos pesados do que a ponte moderna, executada de concreto armado com toda a técnica do nosso tempo. Esse é um pequeno exemplo, entre inúmeros outros, da alta eficiência dos romanos.
A mentalidade prática, utilitária e até pragmática demonstrada pelos romanos em matéria administrativa não podia deixar de impregnar, de alguma forma, também suas práticas religiosas. Curiosamente, os romanos antigos se viam a si mesmos como profundamente religiosos, precisamente porque se cobravam muito no cumprimento dos ritos prescritos, e eram tendentes a desprezar, como pouco piedosos, outros povos que não demonstravam o mesmo zelo ritualístico. Não se pode deixar de ver, nessa atitude, uma certa nota de farisaísmo…
Não quero forçar as comparações, mas parece-me impossível não lembrar um exemplo de nossos dias: também os norte-americanos são um povo utilitário, pragmático, extraordinariamente bem-sucedido nos aspectos materiais e práticos da vida. Na religiosidade tradicional norte-americana (refiro-me especificamente à dos autointitulados WASP – “white, anglo-saxon and protestant”) nota-se, também, um caráter ritualístico muito marcado, com uma forte tendência para seus adeptos se julgarem o mais religioso dos povos. Isso nota-se também na famosa “ética do protestantismo” e na ideia de que o protestantismo é, de si, gerador de mais riqueza material, como ensinou Max Weber.
O historiador chileno Jaime Eyzaguirre Gutiérrez (1908-1968) tem, também, páginas magistrais comparativas do catolicismo com o protestantismo, no que diz respeito à constituição da consciência ética dos povos colonizadores (Espanha e Portugal, como nações católicas, Inglaterra e Holanda, como protestantes) no modo de tratar os povos indígenas e explorar os recursos materiais das terras colonizadas. Ele mostra que as diferenciações dos modelos colonizadores eram decorrência de visualizações teológicas muito profundas.
Fiquemos por aqui. Deixemos para outro artigo uma outra característica que chama a atenção dos historiadores na religiosidade romana: seu acentuado antropomorfismo, representando os deuses não como idealizações de modelos de perfeição, mas como arquetipizações dos homens considerados com suas qualidades e seus vícios.
(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.