Ari Junior
Desde Téspis, passando por Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues, a arte nasce com alguns objetivos bem definidos: levar a crítica do sistema e de seus controladores, de modo um tanto velado, ao povo, para que este tivesse voz e vez, e nessa ilusão de participação, não se sentisse tão descolado e inútil.
Por muito tempo essa função foi mantida. Se você estivesse do lado do poder, fosse magnânimo ou tirânico, invariavelmente você seria representado, e quase sempre, ridicularizado pela arte. Era a única forma do oprimido vencer sobre o opressor. Os louros e os relatos gloriosos sempre eram destinados aos que, na vida real, eram menos favorecidos. Sim, para quem exulta com a expressão ‘a favela venceu’, saiba que não é de agora que a arte quer nos passar isso: que, pelo menos no reino da ilusão, não somos tão miseráveis quanto nossa rotina e saldo bancário insistem em nos mostrar.
E não é que a coisa deu certo? O povo começou a se identificar, e aquilo que deveria ser algo supérfluo, desnecessário, marginal até, passou a ser encantador, anestesiante duma realidade dura, e como toda substância que nos tira a aridez de se viver o dia a dia, isso começou a ter valor, inclusive financeiro, e o artista percebeu que mesmo com poucos recursos, as classes menos favorecidas separavam parte destes para ver, ler ou ouvir algo que fosse bem feito e dessem a elas momentos de prazer. Levando-se em conta que essas classes são a maioria da população, e mesmo algo de custo baixo, escalonado, torna-se uma mina de dinheiro. Mas, dinheiro e poder andam juntos. E o poder logo viu a força da arte, e resolveu que se não conseguia a manipular, poderia comprá-la.
“Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “Ninguém segura esse País.” Foram campanhas midiáticas onde a arte postou-se a serviço do poder. A ‘Hora do Brasil’ e a ‘EBC’ fazem isso até hoje. E não é só aqui. O mundo todo sabe do poder da arte, da comunicação, do vender a ilusão para se conseguir um objetivo específico. Isso tem se acirrado numa disputa em quem tem a narrativa mais convincente para que o povo penda para este ou aquele lado. E, não minto, que isso acaba maculando a obra de arte em si. Cito, à guisa de exemplo, o filme brasileiro mais falado do momento, ‘O Agente Secreto’, que admito não ter visto ainda, mas, que já ouvi um sem-número de avaliações de todo tipo, porém, infelizmente, com uma peculiaridade comum: o veredito, se ele é bom ou ruim, é diretamente ligado à ideologia política do avaliador. Ou seja, se o avaliador tem um viés mais à direita, o filme é ruim. Se o viés é à esquerda, uma obra prima. Em ambos os casos, o avaliador não assistiu, mas, o amigo, a mãe, o ‘influencer’ contou para ele e pronto, isso é uma verdade absoluta.
O contrário é real. ‘Oficina do Diabo’, da produtora Brasil Paralelo, pode ser um filme familiar, robusto de conteúdo e educativo, ou, uma porcaria repleta de clichês com texto medíocre e atuações fracas. Depende da posição política de quem responderá suas questões. De novo, a maioria que fizer sua análise sequer viu a fita. E isso é o que empobrece a arte. E foi aí que a disputa por vencer a narrativa se perdeu, tirando o que seria o mote principal duma obra: encantar. Foi para isso que o teatro, o cinema, a leitura ficcional foram criados: para gerar uma fantasia encantadora para tirar-nos dessa realidade crua e árida.
Claro que, neste volumoso cabedal de arte já criada desde que andamos por essa terra, há muita coisa ruim, desprezível, mas, filtrar isso deveria caber a nós mesmos, nossas preferências, nossas vivências, e não porque um polo ou outro político, cultural ou religioso, diz-nos isso, como que impondo uma regra onde a regra é uma só: te agradar. Gostar de música clássica pode ser ‘intelectual’, mas, se o que te encanta é moda de viola, forró, ou heavy metal, deixe se encantar com isso, sem culpa, e sem medo do julgamento. O importante é nos inebriarmos da sensação que uma obra pode nos causar: contemplação, aprendizado, lágrimas, seja o que for. Que levemos conosco a máxima do poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta.”
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Ari Junior, Escritor, Cronista e Supervisor de Compras