João Ulysses Laudissi
O termo “jardineira”, utilizado no Brasil para designar um tipo antigo de ônibus — especialmente aqueles que circulavam em estradas ainda não asfaltadas entre pequenas cidades — possui uma origem curiosa e bastante distante do universo das flores ou da jardinagem. Sua história está ligada à evolução dos meios de transporte e ao vocabulário que se formou a partir da vida agrícola europeia.
Segundo relata o jornalista Márcio Bueno em seu livro A origem curiosa das palavras, resultado de anos de pesquisa em diversos dicionários etimológicos, muitas palavras associadas ao mundo dos automóveis nasceram de usos anteriores completamente distintos. O caso da palavra jardineira é um bom exemplo desse fenômeno linguístico. Na França, agricultores e produtores de hortaliças utilizavam um pequeno veículo de duas ou quatro rodas para transportar os produtos cultivados em seus jardins até os mercados das cidades. Esse veículo era chamado de jardinière, termo derivado de jardin (jardim). A denominação fazia referência direta ao fato de que servia ao transporte das colheitas provenientes dos jardins e hortas.
Na Itália, um veículo semelhante recebia o nome de giardiniera, enquanto na Espanha era chamado jardinera. Com o passar do tempo, o modelo evoluiu. Surgiu então uma carroça maior, de quatro rodas, puxada por cavalos, aberta e com bancos laterais destinados ao transporte de passageiros. Esse tipo de veículo tornou-se relativamente comum no final do século XIX e início do século XX. Por herança direta do veículo utilizado pelos agricultores, manteve-se a mesma denominação.
Quando os automóveis começaram a substituir os veículos de tração animal, surgiram também os primeiros veículos coletivos motorizados. Alguns deles possuíam estrutura aberta ou parcialmente aberta, com bancos dispostos de forma semelhante àquelas antigas carroças de passageiros. Pela semelhança de formato e função, o nome tradicional foi mantido e passou a designar também esses novos veículos.
Assim, o termo “jardineira” passou a ser aplicado a um tipo de ônibus primitivo, geralmente com bancos paralelos e utilizado para transporte coletivo em regiões rurais ou em trajetos curtos entre cidades.
Na língua portuguesa, essa denominação consolidou-se principalmente no Brasil. A palavra teria sido trazida por imigrantes italianos e espanhóis, que já utilizavam termos semelhantes em seus idiomas de origem. Com o tempo, “jardineira” tornou-se parte do vocabulário popular brasileiro para identificar aqueles ônibus antigos que, muitas vezes, enfrentavam estradas de terra ligando o campo às cidades.
Dessa forma, a palavra jardineira, que originalmente designava um simples veículo agrícola usado para transportar produtos de jardins e hortas, acabou atravessando séculos e transformações tecnológicas até tornar-se, no Brasil, um termo associado à memória dos primeiros transportes coletivos rodoviários.
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João Ulysses Laudissi, engenheiro, professor e ex-Diretor no Sistema SENAI-SP