Ilnah Toledo Augusto
Muito se diz que o Brasil é um país corrupto. A afirmação costuma aparecer com rapidez nos debates públicos, quase sempre acompanhada de indignação. A verdade é que a corrupção não pode ser medida com a precisão de outros fenômenos sociais. Não existe um instrumento capaz de calcular, de forma exata, a extensão desse problema. O que existe, na realidade, é a percepção social de sua presença.
Essa percepção, no entanto, não surge isoladamente. Ela costuma caminhar ao lado de outros sinais que revelam o grau de maturidade institucional de uma sociedade. Onde há desconfiança nas instituições, fragilidade democrática e dificuldades no desenvolvimento social, a sensação de corrupção tende a crescer. Não se trata apenas de uma questão moral ligada a governos específicos, mas de um fenômeno mais amplo, que envolve a forma como Estado, instituições e sociedade se relacionam.
A corrupção não se limita ao setor público. Sempre que há um agente público corrompido, existe também quem esteja disposto a corromper. Isso significa que o problema ultrapassa os limites da política e alcança práticas enraizadas nas relações entre o público e o privado. Trata-se de um problema estrutural, que se alimenta da falta de transparência, da tolerância social e de práticas patrimonialistas que confundem interesses particulares com os interesses coletivos.
O custo da corrupção é alto e muitas vezes invisível. Ele se traduz na perda de confiança nas instituições, no enfraquecimento da democracia e na sensação de injustiça que se instala quando a sociedade percebe que as regras não são aplicadas de forma igual para todos. Quando isso acontece, o pacto social começa a se deteriorar.
Em um ambiente marcado por desconfiança, cresce também o espaço para discursos simplistas que prometem soluções rápidas para problemas complexos. A indignação coletiva passa a ser instrumentalizada por narrativas moralistas que, muitas vezes, pouco contribuem para enfrentar as causas profundas do problema.
O combate à corrupção exige mais do que discursos. Ele depende de instituições independentes e comprometidas com a legalidade, de mecanismos de controle eficazes, de transparência na gestão pública e de uma cultura social que rejeite práticas ilícitas em qualquer circunstância. Não se trata apenas de punir desvios, mas de fortalecer as bases institucionais que impedem que eles ocorram.
A corrupção não nasce espontaneamente. Ela prospera em ambientes em que a vigilância institucional é frágil e a sociedade se acostuma a pequenas concessões éticas que, ao longo do tempo, corroem os fundamentos da vida pública.
Por isso, enfrentá-la é uma tarefa coletiva. Mais do que um desafio jurídico ou político, trata-se de uma exigência ética de toda a sociedade. O preço da corrupção não é pago apenas nos cofres públicos. Ele é pago na confiança perdida, nas oportunidades desperdiçadas e no enfraquecimento das instituições que sustentam a democracia.
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Ilnah Toledo Augusto, pós-doutoranda, Doutora e Mestre em Direito, professora e Coordenadora do NPO – Núcleo Preparatório para Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)