Cecílio Elias Netto
Os mais jovens não sabem. Alguns mais antigos amigos, porém, podem testemunhar: vivi um romance com a Lua. Ardente, misterioso. O céu não era, ainda, poluído pelos reflexos de lâmpadas, de neons. As estrelas pisca-piscavam e, então, eu montava num raio de luar e caía nos braços da minha amada. Não mais me lembro de como me era o retorno a esse nosso chão sempre atraído pelas tentações aluaradas. Fosse, no entanto, por minha vontade, teria ficado lá, no encontro de um leito de rosas.
À época, governos ainda tentavam pousar naquele espaço misterioso. A Lua, porém, fazia suas próprias escolhas. São Jorge, em seu cavalo branco, enfrentava o dragão num combate aparentemente sem fim. Poetas compunham versos ansiosos à espera de algum convite amoroso. Músicos buscavam conjugar sons que pudessem pelo menos insinuar o divino no humano. E – à feminilidade da Lua – diziam de seus sofreres, das dores de amores. Vinicius de Moraes revelava-se o mais sofrido dos suplicantes.
Ah! Vinicius… Invocando o testemunho da cúmplice dos apaixonados, ele cantou a inesquecível “Serenata do Adeus”. Que se tornou o lamento nacional dos corações machucados. Pranteou:
“Ai, a lua que no céu surgiu/ Não é a mesma que te viu/ Nascer dos braços meus/ Cai a noite sobre o nosso amor/ E agora só restou do amor/ Uma palavra: Adeus.”
Amor sempre rimou com dor. E Vinicius – tendo vivido para amar – advertiu quanto ao que evitávamos entender: “O amor é eterno enquanto dure.” Mas essa eternidade só se alcança amando. Por isso, talvez, existam – nestes dias de perplexidade – tantos corações tomados pelo medo de amar. É como se tivessem a intuição de, amando, viver-se o fogacho alentador do paraíso e, também, o doloroso fogaréu dos infernos.
Seja lá o que for, o fato é que – em tão distantes anos – vivi meu romance com a Lua. E – nos delírios do encantamento – narrava-os em meus ainda mais imaturos escritos. Muitos riram-se, dizendo ser maluquice do escrevinhador. Outros entenderam a narrativa apaixonada como arroubo literário. Foi quando aconteceu o quase inevitável nos amores intensos: o fruto da união dos enamorados.
Nasceu-nos uma filhinha. Mais do que mimosa, era uma estrelinha toda vívida, de perninhas rechonchudas e com brilho fascinante. Nossa filha era uma estrelinha azul. E nem sequer parecia recém-nascida. Sorria, cabelinhos soltos, olhares curiosos que, no entanto, mal eram percebidos pela mamãe Lua. A mim, porém, encantavam-me, em autênticos orgulho e vaidade por sabê-la parte de um romance inenarrável.
Minha filhinha azul, estrelinha cativante… Poucos acreditaram naquela concepção, no bebê cintilando suavemente no espaço. Como sempre, davam de ombros, diziam de ficção, de invencionice do narrador. Outros, porém, admitiam ser nada mais do que uma brincadeira de escriba sem assunto para comentar. Mas, ah!, a sabedoria evangélica, o “vinde a mim as criancinhas”, o “se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.
Aconteceu que, em meio àquelas discordâncias, uma garotinha, de apenas 10 anos, procurou o articulista e contou: “Quase toda noite, eu falo com a estrelinha azul. Antes de dormir, olho para o céu e ela responde para conversarmos.”
Minha filhinha azul, portanto, existiu. O triste é que, com o passar do tempo, nunca mais a vi. Foram anos em que perdi os olhos de ver. Ainda agora, tento encontrar a minha estrelinha do coração. Mas a dificuldade é outra. Tão nubladas e poluídas tornaram-se as noites que mal consigo saber onde se escondem as estrelas nos céus. Ou se ainda existem.
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Cecílio Elias Netto, escritor, jornalista, decano da imprensa piracicabana