Lavinia de Souza
Entrei e percorri os cômodos do que fora uma casa, sem teto, telhas agrupadas pelo chão, um chão de vermelhão. As casas de Monte Alegre, as que vi ontem e que não foram ainda reformadas, várias estão em pé só com as paredes; outras com os telhados lotados do mato que cresceu. Elas têm a beleza do que já existiu, dá para imaginar como era a vida de quando eram habitadas.
Mas foi para a casa, a casa dos meus avós, que eu voltei. A escada, o vermelho brilhante impecável, que tia Isabel cuidava, foi para lá que fui. Mergulhei no tempo, nuns mais de dezenas e dezenas de anos, ah… como foram rápidos.
Eu estava numa sala, quase escura, eram seis da tarde. Um receio veio me deixar inquieta. No rádio, começou a tocar a Ave Maria. A casa parecia vazia, não entendi por que não estavam lá. Depois da sala vi os quartos, solenes, silenciosos. Lembrei-me que, do lado esquerdo, passando a sala, eu entrava na cozinha, onde a vovó preparava a comida no fogão de lenha, cozinhava o frango que criava e depois matava para os domingos com a família. Nunca vi essa parte, tinha horror a mortes, qualquer uma que fosse, eram todas criaturas de Deus. Eu comia o frango tão bem temperado e assado, não me questionava sobre a sua breve vida.
A casa dos meus avós era como se fosse um templo, respirava um respeito, um cheiro de limpeza, disciplina; o vermelhão do chão brilhante me mostrava uma pobreza sem miséria, farta das coisas simples e importantes!
Eles tiveram pouca escola, eu entendia o que falavam, compreendia a conversa deles, filhos de italianos que entrecortavam as palavras de um português caipira com palavras italianas. Minha avó benzia, rezava uma reza que nunca me foi revelada; eu não era a mais velha das netas, como a prima Zelinda, que aprendeu com ela a benzer. Vovó e vovô eram lavradores católicos, falavam da vida na roça, do tempo, do dia a dia, dos filhos e netos.
No chão da casa, que caminhei ontem, uma leve vegetação, beirando as paredes, fugiu ao controle do piso vermelho e escapou! As paredes desveladas mostravam os tijolos originais; o que foi parte do reboque e pintura era como se fosse uma obra de arte, a que o tempo criou.
Fiz pose para uma foto no que restou da janela, como se a vida tivesse parado naquele tempo tão puro, tão sereno e intocável do meu passado. Era eu e era a casa que revivíamos; senti um perfume de nostalgia, de algo que se foi e ficou no ar, aqui comigo, em todo tempo de minha vida.
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Lavínia de Souza, economista doméstica e pedagoga