A maior barreira para o poder das mulheres talvez não sejam os homens

Kátia Garcia Mesquita

 

Somos maioria da população brasileira. Somos também maioria do eleitorado. Estamos cada vez mais presentes nas universidades e no mercado de trabalho. Ainda assim, continuamos sendo minoria quando se trata de ocupar posições de poder. Por quê?

Durante muito tempo, a resposta pareceu simples: a histórica desigualdade entre homens e mulheres. De fato, não há como ignorar que a sociedade foi construída, ao longo de séculos, sob uma lógica patriarcal que reservou aos homens os espaços de decisão e às mulheres funções consideradas secundárias.

Essa realidade ainda produz consequências graves. Não raramente, a diferença física (força e tamanho), transformou-se em instrumento de dominação e violência. Crimes motivados por ciúme, sentimento de posse ou pela distorcida ideia de “honra” continuam fazendo vítimas entre mulheres todos os dias.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais incômoda que precisamos enfrentar.

Será que a maior barreira para o avanço das mulheres está apenas nos homens?

Ou será que parte dessa dificuldade também nasce da forma como nós, mulheres, olhamos umas para as outras?

Historicamente, os homens aprenderam a formar alianças entre si. Construíram redes de apoio, fortaleceram vínculos e ocuparam espaços coletivamente. Entre as mulheres, porém, muitas vezes fomos educadas (consciente ou inconscientemente) a enxergar outras mulheres como concorrentes.

Concorrentes no trabalho.

Concorrentes na política.

Concorrentes na vida.

Quantas vezes deixamos de apoiar uma mulher porque não fomos nós que conquistamos aquele espaço? Quantas vezes o sucesso de outra mulher é recebido com silêncio, indiferença ou até com uma inveja velada? Essa reflexão pode parecer dura, mas é necessária.

Se as mulheres confiassem mais nas próprias mulheres, provavelmente nossa representação política seria muito maior. Somos maioria no eleitorado brasileiro e, ainda assim, elegemos poucas mulheres para cargos legislativos e executivos.

Essa contradição revela algo profundo: muitas vezes não confiamos plenamente na capacidade das próprias mulheres de liderar. E, no entanto, a realidade demonstra exatamente o contrário.

As mulheres mostram diariamente uma capacidade extraordinária de resistência, inteligência e adaptação. Trabalham fora, cuidam da casa, educam filhos, sustentam famílias, estudam e seguem se aperfeiçoando. Muitas exercem jornadas duplas ou triplas com uma dedicação que raramente recebe o devido reconhecimento.

Somos persistentes diante das dificuldades. Podemos até envergar, mas raramente quebramos. Talvez esteja na hora de mudarmos o foco.

Mais do que exigir dos homens respeito, igualdade e reconhecimento, reivindicações absolutamente justas e imprescindíveis, digamos a verdade, precisamos também aprender a olhar umas para as outras com mais solidariedade, admiração e apoio.

Celebrar a conquista de outra mulher não diminui ninguém. Ao contrário: fortalece todas. Quando uma mulher avança, todas avançam um pouco.

Talvez a verdadeira revolução feminina ainda esteja por acontecer.

E ela começará no dia em que cada mulher olhar para outra mulher e enxergar não uma rival, mas uma aliada.

Nesse dia, não haverá espaço de poder que nos seja negado.

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Katia Garcia Mesquita, mulher, simplesmente, MULHER!

 

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