Educação financeira – Palestra destaca a segurança feminina

Evento aconteceu na noite de quarta-feira (11), no Salão Nobre da Câmara. CRÉDITO: Guilherme Leite

 

Encontro, promovido pelo vereador André Bandeira (PSDB), contou também com a entrega do prêmio “Mulheres que inspiram, empreendedorismo, coragem e autonomia”

 

A Câmara Municipal de Piracicaba realizou, na noite desta terça-feira (11), mais uma edição do Fórum Municipal Permanente de Educação Financeira, Empreendedorismo e Empregabilidade, instituído pelo decreto legislativo 56/2018, por iniciativa do vereador André Bandeira (PSDB). O encontro aconteceu no Salão Nobre para a realização da palestra  “Golpes da Liberdade: a segurança começa por dentro”, ministrada por Maira Bandeira, e entrega de homenagens para 20 mulheres por meio do prêmio “Mulheres que inspiram, empreendedorismo, coragem e autonomia”.

Compuseram a mesa de abertura do evento, além do vereador André Bandeira, responsável pelo fórum, a gerente de negócios pessoa física de uma instituição financeira, Nathalia Mattos Prado Marson. Durante a saudação inicial, André Bandeira agradeceu a presença de todos no Salão Nobre e esclareceu os motivos pelos quais está realizando, “dentro do Fórum Municipal Permanente de Educação Financeira, Empreendedorismo e Empregabilidade, uma homenagem às mulheres”. “Temos mulheres que trabalham o empreendedorismo, trabalham a educação, trabalham a empregabilidade e, enfim, trabalham pela nossa sociedade no seu dia a dia. Para nós, é uma honra imensa poder fazer esse reconhecimento a vocês e a todas as outras mulheres”, afirmou.

Já Nathalia Marson destacou a presença feminina na instituição em que atua, que conta com cerca de 85% do quadro de colaboradores formado por mulheres. “Isso também se reflete no nosso portfólio de produtos, com linhas específicas para o público feminino”, afirmou. Ela mencionou ainda um programa social voltado ao apoio de famílias e da comunidade. “Estamos todos juntos na mesma missão, que é por uma Piracicaba mais próspera”, disse.

Palestra – O principal momento do encontro foi a palestra “Golpes da Liberdade: segurança começa por dentro”, ministrada por Maira Bandeira, ativista na área de segurança feminina e fundadora de um instituto que atua na prevenção da violência contra mulheres. A entidade desenvolve ações que combinam defesa pessoal, suporte psicológico e orientação jurídica para prevenir a violência e auxiliar vítimas no processo de superação.

A palestrante contou que começou nas artes marciais aos cinco anos e hoje é faixa preta em jiu-jitsu e taekwondo. “Fiz diversos anos de boxe e outras artes marciais. E eu tive que fazer isso para me defender”, afirmou, ao relatar abusos que sofreu na infância e na adolescência, além de um relacionamento extremamente abusivo. “Tive uma gravidez precoce e vivi dentro dessa relação por muitos anos sem conseguir sair. Precisei da arte marcial e da resiliência para conseguir lidar com tudo isso”, disse.

Maira explicou como transformou suas experiências de vida em um projeto voltado ao apoio e à proteção de mulheres. “Quando eu tinha cerca de 16 ou 17 anos, vivi uma situação extremamente grave na rua da minha casa. Foi na época em que um homem passou a assassinar várias mulheres em pontos de ônibus, do Jabaquara ao Grajaú, em São Paulo. Ele escolhia as vítimas de forma completamente aleatória, ou seja, mulheres que estavam apenas esperando o ônibus para ir trabalhar e, de repente, eram atacadas sem aviso, sem culpa, simplesmente perderam a vida ali”, relatou.

Ela contou que muitas mulheres de seu bairro ficaram com medo de sair de casa. “Eu, que já era faixa preta, dizia que continuaria indo trabalhar e fazendo minhas coisas e que, se aquele homem me encontrasse na rua, o problema seria maior para ele do que para mim. Muitas colegas disseram que gostariam de ter essa confiança, e eu respondi que procurassem uma academia de arte marcial. Mas elas diziam que tinham medo, porque geralmente só havia homens nesses espaços”, afirmou, acrescentando que foi nesse momento que começou a dar aulas de defesa pessoal para mulheres.

Segundo ela, a iniciativa cresceu rapidamente, reunindo mais de 500 mulheres interessadas. “Com o tempo, criei meu primeiro espaço, depois o segundo e o terceiro, porque os anteriores ficaram pequenos. E foi nesse processo que percebi que, mesmo sendo faixa preta e entendendo a violência contra a mulher, eu ainda não estava preparada psicologicamente para lidar com isso. Acabei escolhendo mais um abusador para ser meu parceiro”, contou.

Ela destacou que traz essa reflexão porque muitas pessoas que atuam na linha de frente, atendendo mulheres vítimas de violência, ainda não compreendem completamente o processo vivido por essas vítimas e acabam revitimizando-as com perguntas como “por que você escolheu essa pessoa?” ou “por que não sai dessa relação?”. Para explicar a situação, apresentou o ciclo da violência contra a mulher. Segundo Maira, a vítima não inicia um relacionamento já sofrendo agressões. “Uma vítima de violência não começa um relacionamento tomando um soco ou um tapa”, disse.

No início, muitas vezes ocorre o chamado love bombing, caracterizado por demonstrações intensas de carinho e atenção. “É esse homem chegando com flores, com muito cuidado”, exemplificou. Com o tempo, porém, surgem sinais de controle. “Começa com o controle da roupa”, que gradualmente se amplia para amizades, trabalho e relações familiares. Esse processo leva ao isolamento da vítima, que passa a confiar apenas no parceiro e a duvidar das outras pessoas. “Se ele diz que aquela amiga não presta, talvez ele esteja certo. Quando a mulher tenta impor limites, surge o acúmulo de tensão. Vem a sensação de que estou pisando em ovos, com medo constante de falar ou agir de forma que provoque conflito. De repente, essa mulher vai sendo psicologicamente encaixada”, afirmou.

Maira acrescentou que há sempre uma promessa dentro desse ciclo. “Quando começa a negação, é a negação dessa promessa. Ela começa a perceber que as coisas nunca acontecem e que esse controle está passando do limite. A partir dali começa o isolamento, surgem as ordens e, às vezes, as ameaças, que fazem parte desse acúmulo de tensão. Isso geralmente termina em uma explosão violenta quando ela passa a negar com mais força”, explicou.

Segundo ela, essa explosão pode se manifestar de diversas formas. “Pode ser um grito, um beliscão, uma piada ofensiva. Começam pequenas, mas já são violentas”, disse. “Essa microviolência, uma vez aceita, começa a piorar. E, a cada vez que o ciclo se repete, a violência aumenta um pouco mais. Depois da explosão vem a desculpa, a culpa, o remorso, o pedido de perdão e o apelo à empatia da mulher. E então voltamos para a fase da ‘lua de mel’. Vocês percebem o que está acontecendo psicologicamente aqui? Endorfina, adrenalina”, afirmou.

Algumas drogas produzem efeito semelhante, de acordo com Maira. “Drogas que vemos destruindo vidas causam efeitos parecidos no cérebro. Isso também acontece com uma mulher em situação de abuso narcisista. É isso que vicia. E muitas vezes a mulher nem sabe por quê, nem entende o que está acontecendo. Quando ela tenta sair desse ciclo, sente como se algo estivesse sendo arrancado do peito”, explicou.

Por isso, destacou a importância do apoio familiar para romper o ciclo. “Se essa mulher não tiver todo esse apoio e essa noção do que está acontecendo dentro da cabeça dela, ela vai voltar. Se os atendentes e profissionais que estão na linha de frente também não tiverem essa consciência — e muitos ainda não têm — acabam revitimizando essa mulher”, afirmou, ressaltando que parte de seu trabalho consiste em treinar equipes que atuam no enfrentamento à violência.

Maira também relatou outros casos e mencionou o atendimento de uma jovem que procurou ajuda após receber ameaças de morte. “Ela foi atendida por um delegado em uma Delegacia da Mulher. Ele perguntou: ‘Ele falou que vai te matar?’. A menina respondeu que não, com essas palavras. Então ele disse que ela poderia ir embora. E é isso que acontece muitas vezes”, contou. Segundo ela, muitos profissionais não querem lidar com esse tipo de ocorrência. “Eles preferem encaminhar para outra delegacia, porque sabem que a chance de essa mulher voltar para a relação é grande. Mas preferem acreditar que ela quer voltar, em vez de compreender os motivos psicológicos que podem levá-la a isso”, disse.

Ela também abordou situações em que mulheres são forçadas a manter relações sexuais dentro do casamento. “Esse tema ainda gera muita polêmica, mas isso tem nome: estupro marital. Quando você não quer, está cansada, mas sente que precisa fazer o outro feliz mesmo assim. Muitas mulheres desenvolvem doenças físicas e também problemas psicológicos e psicossomáticos”, afirmou, pedindo reflexão aos homens presentes.

Em seguida, ela solicitou às mulheres presentes que respondessem a um questionário sobre como se sentem em relação à segurança na cidade, que será encaminhado ao vereador André Bandeira. Segundo ela, as respostas podem gerar indicadores importantes, como índices de assédio e percepção de segurança pessoal. “É uma ferramenta muito importante para qualquer cidade”, disse.

Ao final da palestra, foram apresentadas técnicas básicas de defesa pessoal, com demonstrações práticas ao público presente.

Homenagens – No início do evento, o vereador André Bandeira homenageou duas profissionais de uma insituição financeira, Nathália Mattos e Juliana Mantuan Costa. Ao final do fórum, também foram realizadas homenagens do prêmio “Mulheres que inspiram, empreendedorismo, coragem e autonomia”.

Uma das homenageadas foi Ariane Marinho, cirurgiã-dentista especialista, mestre e doutora em Endodontia pela Fop/Unicamp (Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade de Campinas). Também foi homenageada Beatriz Moruzzi Caldas Furlan, mentora de mulheres e consultora de estilo, especialista em autoestima e autoconfiança feminina.

A professora Cintia Vitti Mazzotti também recebeu homenagem. Ela atua como coordenadora de gestão pedagógica na Escola Estadual Professor José Romão e como professora de Língua Inglesa em uma instituição de ensino da cidade.

Outra homenageada foi Clarissa Costa Motta, cirurgiã-dentista com mais de 40 anos de experiência. A juíza Eliete de Fátima Guarnieri, titular da 3ª Vara da Comarca de Santa Bárbara d’Oeste e com mais de 25 anos de atuação na magistratura, também foi homenageada.

Entre as homenagens esteve ainda a médica Juliana Previtalli, cardiologista que atua na prevenção e no tratamento de doenças cardiovasculares. A advogada Kethiley Fioravante, especialista em Direito Tributário, também recebeu reconhecimento.

Também foram homenageadas Larissa Braga Bosqueiro, administradora e especialista em gestão de pessoas e liderança, e Lucilene Aparecida Mendes da Rocha, formada pela Fundação Getulio Vargas. A empresária Luiza Junqueira também recebeu homenagem. Formada em Medicina Veterinária, especializou-se em gestão de pessoas e atualmente atua na área imobiliária.

Entre as homenageadas estiveram ainda Marina Helena Aragon Franchi, nutricionista e empresária do setor hortifruti; Monica Felipini Guerra, farmacêutica que atua na área oncológica e também como criadora de conteúdo digital; e a empresária Natália Delgado de Moraes Salles.

Também foram reconhecidas Regina Aparecida Salvador Volpato, comunicadora e gestora de eventos; Rosangela Maria Rizzolo Camolese, engenheira civil, educadora e ex-secretária municipal de Cultura e Turismo; e Silvia Andréia Schoba Teixeira, cirurgiã-dentista formada pela Fop/Unicamp e fundadora de uma clínica odontológica.

Na área esportiva e de empreendedorismo, foi homenageada Vanessa Agnelo, idealizadora do movimento Let´s Run Girl. Também receberam reconhecimento Vanessa Cristina Machado Kato, diretora do Colégio Educare; Vanessa Ferreira Miranda, maratonista e enfermeira do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência); e Lilean Tsuchiya Lima Takara, é formada em fisioterapia e empresária do setor de cosméticos.

Durante o encerramento, a apresentadora Luciana Paula fez uma homenagem especial a Dulce Bandeira, esposa do vereador André Bandeira, que também prestou homenagem à palestrante do encontro, Maira Bandeira.

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