Remodelar a Praça José Bonifácio para quem?

Pablo Carajol Delvage

 

A recente apresentação do projeto de reforma e remodelação da Praça José Bonifácio, elaborada em parceria entre a Prefeitura Municipal e a Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), recoloca no debate público uma questão fundamental para qualquer cidade: para quem são pensados os espaços públicos?

Em primeiro lugar quero registrar que somos a favor da reforma e de investimentos no planejamento urbano da área central e da Praça! A praça central da cidade não é apenas um jardim urbano. Trata-se de um dos espaços mais simbólicos da cidade, ponto histórico de convivência social e política, manifestações culturais, atividades religiosas e encontros cotidianos. Ao longo de mais de um século, a praça consolidou-se como um lugar de permanência e de sociabilidade, articulado com a presença da comunidade e com o intenso fluxo de pessoas que circulam pelo centro.

Embora a modernização dos espaços públicos seja necessária, algumas propostas apresentadas no projeto merecem reflexão crítica.

A questão da participação popular é indispensável para que o projeto seja permeado por todos os grupos. A Câmara Municipal negou a realização de uma Audiência Pública sobre o tema e isso é um absurdo completo! A população tem o direito e dever de participar das decisões. Nas democracias esse é o fator essencial de força do regime e os governos e demais grupos, como a Acipi, precisam garantir e valorizar a participação plena das pessoas e dos demais grupos sociais, mesmo que seja para questionar elementos do projeto apresentado, esse é papel democrático.

Uma das preocupações centrais diz respeito ao rebaixamento do jardim. Essa alteração urbanística pode resultar, na prática, na retirada dos bancos ou na impossibilidade de utilizá-los da forma como hoje são utilizados pela população. Esse tipo de solução, adotada em várias cidades brasileiras nas últimas décadas, muitas vezes está associado a estratégias de exclusão e controle do uso do espaço público, fenômeno frequentemente caracterizado como higienismo social. Praças são, por definição, espaços democráticos de permanência e convivência – e não ambientes projetados para restringir quem pode ou não permanecer neles. Isso é exclusão e não irá resolver problemas socais mais profundos e graves.

Outro ponto que chama atenção é a pouca integração do projeto com áreas históricas e simbólicas do entorno imediato da praça. Locais importantes da memória urbana, como o acesso à Rua Governador e o tradicional Passo do Senhor do Horto, praticamente não aparecem como elementos estruturantes da proposta apresentada. Uma revitalização consistente deveria fortalecer essa rede de conexões históricas e culturais que formam o tecido urbano do centro da cidade. Outro ponto que merece destaque, a nossa praça se encontra a um quarteirão do Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, isso merece ser valorizado.

Neste aspecto de valorização das questões históricas, merece destaque e reconhecimento é a implementação do Memorial Comurba, que inclusive se tornou Lei por meio do Mandato Coletivo, aprovada pela Câmara e sancionada pelo Prefeito. O projeto contempla a construção do monumento e tem havido o diálogo com um grupo de pessoas e profissionais dedicados à memória das vítimas dessa tragédia para a cidade.

Nenhuma árvore a menos! Há ainda uma questão ambiental que precisa ser considerada com seriedade. Movimentos sociais e grupos da sociedade civil têm se manifestado contrários à retirada de árvores de médio e grande porte da praça. Em um contexto de crise climática global e de aumento das temperaturas nas cidades, a preservação da arborização urbana não é apenas uma escolha estética: é uma necessidade ambiental e de saúde pública. Não iremos permitir!

As árvores desempenham papel essencial no controle da temperatura da região central, contribuindo para a regulação do microclima, oferecendo sombra e criando condições mais adequadas para a permanência das pessoas no espaço público. Além disso, são parte fundamental da identidade paisagística da praça. Sob essas árvores acontecem quermesses, festivais, encontros culturais, atividades sociais e momentos cotidianos de convivência que dão vida ao coração da cidade.

Revitalizar uma praça histórica não significa apenas modernizar sua infraestrutura. Significa preservar sua função social, sua memória e sua capacidade de acolher diferentes públicos.

Por isso, mais do que um projeto técnico, a remodelação da Praça José Bonifácio precisa ser construída como um processo de diálogo com a sociedade. Moradores, trabalhadores do centro, comerciantes, pesquisadores, movimentos sociais e usuários da praça devem participar efetivamente da discussão sobre o futuro desse espaço tão importante para a cidade.

A praça é um patrimônio coletivo. E qualquer intervenção em seu desenho urbano deve partir de um princípio simples: garantir que ela continue sendo um espaço aberto, democrático, arborizado e vivo para todos e todas.

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Pablo Carajol Delvage, historiador, membro do Mandato Coletivo e estudante de Administração Pública na Unicamp

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