Adilson Roberto Gonçalves
Semanas atrás, a extrema direita dizia que, quando Lula tinha ampla vantagem nas intenções de voto para a Presidência do país nas eleições de outubro deste ano, a situação e toda a análise da pesquisa eram forjadas porque feita pela “imprensa comunista”, sabe-se lá o que isso signifique.
Agora que um novo participante daquele grupo político toma corpo, haja vista o fracasso dos fascistas em encontrar um nome que disfarçasse mais suas condições de retrocesso e golpismo, eles se arvoram em dizer que o candidato é competitivo, sem questionar a idoneidade do instituto de pesquisa. A pesquisa foi feita antes pelo mesmo instituto Datafolha que fez agora. O candidato antes era Flávio Bolsonaro, o mesmo de agora, dentre os que se destacaram. É o comportamento típico do fascismo, ou seja, o da confusão da informação, o da dissimulação.
Os analistas vinculados à imprensa – que é conservadora e de direita em sua base – já se excitam ao constatar que há um candidato competitivo, mesmo arrastando o sobrenome mais criminoso do país da atualidade. As rachadinhas e enriquecimento anormal do senador ficam em segundo plano, pelo que se depreende das manchetes dos jornais. Outros analistas procuram forjar uma situação em que Lula já estaria perdendo a eleição. É claro que há uma longa jornada até lá, difícil, mas cabem outras interpretações necessárias nesse momento político.
Sem fazer campanha, com a oposição fustigando seu governo dia sim, outro também, e com a unção do herdeiro do criminoso preso a representante da “moral e dos bons costumes”, Lula está muito bem, mantendo-se como o favorito para a eleição vindoura, segundo o mesmo Datafolha. Em nenhuma das hipóteses, Lula aparece atrás de seus prováveis oponentes. Além disso, em um dos cenários avaliados, ele venceria os concorrentes no primeiro turno, na margem do erro da pesquisa. Mas, é claro, a omissão do fato faz parte do pluralismo de opinião.
Os partidos se ajeitam para acomodar os arranjos, especialmente nos estados, uma vez que no plano nacional o mais provável é a extrema direita (termo que acaba se alternando com fascista, mas significa o mesmo campo político) ir com candidato único, deixando os atuais governadores que não podem se reeleger como candidatos ao Senado ou articuladores da campanha. O noticiário está crivado de situações críticas, resolvidas, estapafúrdias e de todos os matizes, de norte a sul do país, mostrando o caldo que é nossa política.
Pela esquerda, o fato mais relevante foi o PSOL tomar posição em apoiar a reeleição de Lula, mas não formar uma federação mais ampla no momento. O PSOL possui correntes distintas e a que defende a federação com o PT parecia ser a majoritária no momento, o que não se concretizou. Fato é que as direitas são direitas em qualquer canto, esquerdas são diferentes. A manutenção da identidade política é importante e necessária, mas, frente ao que virá nas eleições deste ano, poderá ser engolida pelo interesse maior. O PSOL é o único partido legítimo de esquerda com projeção nacional e poderia deixar de sê-lo se seus votos fossem engrossar a bancada do PT. Ainda bem que a federação não foi vitoriosa.
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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro