Não fique na frente do caminhão!

Ademir Barbosa Júnior

 

Com gratidão, para a família Galerani: Pai Joãozinho; Pai Paulinho;

Mãe Sueli e Ogã Bugrino (in memoriam)

Quando eu era adolescente, me ocorreu uma imagem para lidar com situações difíceis: quando um caminhão desce uma ladeira, desgovernado e sem freios, você fica na frente ou salta para o lado, deixando o caminhão passar? Eu nunca me esqueci dessa imagem, embora, algumas vezes, tenha tentado argumentar com o caminhão para que não batesse. Resultado: em todas as vezes, fui atropelado.

A imagem traduz os limites saudáveis que devemos ter nas relações interpessoais, ao não gastarmos nossa energia para argumentar com quem não quer ouvir e já tem um parecer pré-concebido sobre algum tema, alguma situação. Não dá para ficar na frente e ser atropelado. Quando muito, é possível socorrer o (a) motorista após o desastre. Naturalmente, se ele (a) permitir.

É o parecer pré-concebido que muitas vezes prejudica o diálogo e sustenta o pré-conceito. Na infância, no livro de uma disciplina chamada Relações Humanas (foi em 1983, no seminário salesiano, e eu ainda não tinha 11 anos), li uma história que hoje circula francamente nas redes sociais, com algumas variações. Conta-se que um navio em alto mar vê uma luz e envia uma mensagem exigindo que essa suposta embarcação mude seu curso. A resposta é para que o navio desvie. Indignado, o comandante, arroga seu currículo, o histórico do navio e ameaça contra-medidas. A nova resposta que recebe, calma, é para desviar, pois a luz não era a de uma suposta embarcação, mas de um farol.

Nas religiões de terreiro aprendemos a lidar com as perdas com naturalidade, sem negar a dor, mas sentindo-a de modo a ressignificá-la em vez de fortalecê-la e perder as lições que vêm com ela e com as perdas, as desilusões, as incompreensões, os mal-entendidos. Grande Orixá é o Tempo, e “o Tempo dá, o Tempo tira/o Tempo passa e a folha vira”. Exu, o Senhor das encruzilhadas –  por onde passam também caminhões desgovernados e navios arrogantes – , nos prepara para compreender quando e como o amigo pode se tornar traidor, e o desafeto, um (a) companheiro (a) que nos sustenta e apoia. Iansã, com seus ventos, leva para longe o que não serve para que haja espaço para o novo. São apenas algumas de tantas referências de como lidar com os ciclos e as transmutações. Compreender isso é ter sempre os caminhos abertos: não há caminhão desgovernado ou navio arrogante que possa fechar!

 

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Ademir Barbosa Júnior (Pai Dermes de Xangô), escritor, doutor em Comunicação pela UNIP; mestre em Literatura Brasileira pela USP; pós-graduado em Ciências da Religião pelo Instituto Prominas; dirigente da T. U. Caboclo Jiboia e Zé Pelintra das Almas e Ogã do Ile Iya Tunde

 

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