As tribos perdidas

          

            Atualmente, alguns povos ainda preservam a vivência tribal. Enfrentam desde o frio do Ártico, das florestas úmidas, da aridez das estepes ao calor escaldante do deserto, há milênios. Subsistem nos iglus quentes, nas ocas das aldeias, na proteção dos quilombos, nos enclaves de cavernas e sobre os tapetes coloridos das tendas, numa vida sustentável de beleza original, numa economia voltada às necessidades e não à acumulação monetária. Suportam as intempéries, ora se inteirando com grandes animais domesticados, desde boi até camelos, com a flora do lugar e seus chás, em ambientes quase que inóspitos. De tantos lugares acidentados, nenhum pode ser mais inóspito que o coração egoísta.

Nos primórdios do Cristianismo, pelo território de Israel havia essa consciência tribal, na qual o  pão partilhado era o ponto de encontro. Em Roma, é o pão e circo de mortes do Coliseu, um negócio para enaltecer o Imperador e suas conquistas – o pão com a ideologia imperialista de recheio.

Das doze tribos originárias de Israel haviam sobrados as de Benjamim e Levi, na junção com a tribo dos judeus. A partir da destruição do templo nos anos 70 d.C, Roma começa a combater as chamadas guerras judaicas e expulsam os judeus do território, então errantes e sem pátria. No lugar reconhecido como Palestina, povos árabes semitas passaram a viver com estruturas semelhantes às tribais, clãs familiares e grupos de beduínos.

Entretanto, depois de quase dois mil anos os judeus sionistas retornaram, impondo-se geograficamente num estado teocrático e belicoso. Embora muitos judeus não aceitem o Sionismo, os sionistas requisitam status nacional de toda Israel bíblica, relegando os palestinos à sub-raça invasora. Com a guerra em Gaza as atrocidades são muitíssimas e vistas em tempo real. Nem se consegue processar ou indignar-se reflexivamente do que se instalou contra os palestinos. O ódio não é contra essa etnia vizinha, em particular, o ódio é contra todos os povos e pessoas da terra que estejam fora do conceito de sociedade padronizada.

As tribos originárias do Brasil, dos quilombolas e dos agrupamentos rurais sofrem os mesmos ataques que outras das Américas, e semelhantemente à Gaza, em nome do “progresso” capitalista. Montam-se cidades sem planejamento saudável, em risco de enchentes, com estrangulamento de tubulações e outras ocorrências como edificações enormes sobre minas d’água, produzem contaminação de lençóis freáticos, de rios, das florestas e, por consequência, dos oceanos.

Até mesmo as ações humanitárias podem ser punidas! Incriminados quem der comida na área central de São Paulo, como o pe. Júlio. Ou, os caipiras que se cuidem, por distribuir gratuitamente marmitas em Piracicaba-SP, agora tem multa. Ou, ainda, pode-se correr risco de morte em praça pública, ao socorrer algum trabalhador ou manifestante alvejado pela polícia violenta do Brasil.

Entretanto, xô guerra de nervos, ânimo, viva a vida tribal e os antigos espíritos presentes!

Camilo Irineu Quartarollo – Escrevente e escritor, ensaísta, autor de crônicas, historietas, artigos e livros, como Contos inacreditáveis da vida Adulta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima