“In Extremis” (308)
Cecílio Elias Netto
Nossos mais longevos ancestrais – diante de alguém afetado na consciência, no senso de atualidade – diziam: “perdeu a alma”. E, por alma, entenda-se o que há de misterioso na condição humana; seja um sopro, um princípio vital, acredite-se ou não em sua existência. “Perder a alma” permanece na sabedoria popular como que a perda da consciência, do conhecimento, da própria identidade. Seria, pois, como desconhecer onde e como está, quem ou o quê se é. O ainda mais terrível aconteceria se um povo, se gerações, se cidades “perdessem a alma”.
Pois, é dessa “alma do povo, da cidade” que emana o fundamental, o caráter comunitário. Logo, o “espírito da cidade” significa ela própria, com tudo o que a representa, com sua história e, até mesmo, com suas falhas. “Perder a alma” – como entendiam os ancestrais – é, portanto, perder tudo.
Piracicaba tem sobrevivido a todos os desafios e dificuldades justamente por ter preservado – ao longo dos séculos – esse espírito que, na realidade, é o próprio e ambicionado “espírito do mundo”, a “anima mundi”. Ou seja: viver o universal no local. A “caipiracicabanidade” sobrevive – sempre renovada – a partir dessa consciência coletiva de nossos valores, tradições, costumes, falares. Têm sido assim. E, no entanto, estamos passando, há algum tempo, por enfrentamentos mais preocupantes do que muitos dos anteriores. É outra época de incertezas.
Isso tem a ver, também, com a Chácara Nazareth. Ela é um dos poucos – e, talvez, últimos – tesouros que conservam tempos e valores de nossa singularíssima história. Embora propriedade particular, isso não impede de Piracicaba tê-la como um relicário protetor da antiga nobreza cultural que herdamos desde tempos imperiais. A Chácara Nazareth é um museu de preciosidades históricas desconhecido por grande parte da população. E, também, da quase maioria das autoridades locais.
O escrevinhador está entre os privilegiados que a conheceram. E foi nos áureos tempos, quando aquele pedaço do Paraíso tinha como anfitriões João (Ruth) Pacheco e Chaves. E, à despedida deles, a filha Mercedes, uma das herdeiras de todo aquele refinamento à inglesa. A família recebia alguns de seus convidados em sábados nos quais o deputado retornava a Piracicaba. Eram reuniões inspiradas nos famosos “SabaDoyle” cariocas, encontros culturais promovidos pelo intelectual Plínio Doyle. Aos sábados, ele recepcionava amigos seus, entre os quais Drummond de Andrade, Pedro Nava, Di Cavalcanti, Rachel de Queiroz, Mário Quintana.
Os Pacheco Chaves criaram, àqueles anos, o “Sabacheco”, com seus convidados caipiras. A Chácara Nazareth vivia, ainda, como que seu destino histórico, o de ser o centro político-cultural de nossa terra. A saudosa Mercedes Pacheco e Chaves Lunardelli comentava: “De todas as gerações de nossa família, apenas a minha não tem ativismo político-partidário”. Mercedes honrou a tradição familiar e, do que fora uma fazenda, transformou em um centro hortifrutigranjeiro. Ela própria, com sua auxiliar, vendia os seus produtos nas feiras livres da cidade.
Esse passado histórico permanece vivo não apenas por recordações, mas por nomes de ruas em homenagem a nossos notáveis antepassados. Além do Bairro Conceição, ruas Conceição, Jane Conceição, João Conceição, Edgar Conceição, Manoel Conceiçao, Gumercindo Conceição. Mais outra crise envolvendo a Chácara e a Prefeitura preocupa a população. Não se trata de um imóvel qualquer. Trata-se de um patrimônio histórico-cultural também de Piracicaba.
Descuidar desse relicário será perder parte da já combalida alma da cidade.