Ari Junior
Todos os anos, alguém repete a frase com um meio sorriso:
— “Agora é só depois do Carnaval…”
Diz-se isso como quem absolve o calendário. Como se janeiro e fevereiro fossem uma espécie de prólogo festivo, um ensaio antes do espetáculo começar. Como se o país inteiro estivesse deitado numa rede, esperando o último bloco passar para, enfim, acordar. Mas há um detalhe que raramente entra nessa conversa: o Brasil nunca para.
Enquanto o trio elétrico esquenta os motores, o segurança já está de pé há horas. Enquanto o confete sobe, o bombeiro revisa equipamentos. Enquanto alguém comenta que “ninguém trabalha nesse país”, o coletor de lixo termina seu turno antes mesmo de o sol nascer. O Brasil não começa depois do Carnaval. Ele já estava funcionando quando o primeiro abadá foi vendido.
Talvez a frase tenha nascido como metáfora, uma crítica à nossa procrastinação institucional, à burocracia que se arrasta, às decisões que sempre ficam “para depois”. Mas o problema das metáforas repetidas demais é que elas acabam virando caricaturas. E a caricatura do brasileiro preguiçoso, malandro por vocação, amante do atalho, ganhou força demais. Tornou-se confortável acreditar nisso. Explica fracassos. Simplifica diagnósticos. Alimenta piadas prontas.
O que não aparece na mesma proporção é o Brasil que acorda às quatro da manhã para pegar dois ônibus. O que não viraliza é a enfermeira que atravessa plantões seguidos. O que não vira meme é o pequeno empreendedor que abre as portas e gera empregos mesmo sem saber se o mês fechará no azul.
Há um país inteiro que não depende de calendário festivo para existir. Ele funciona na madrugada, no domingo, no feriado, no pós-feriado e até durante o próprio desfile. Por isso talvez a maior injustiça seja reduzir uma nação de mais de duzentos milhões de pessoas a um estereótipo preguiçoso reforçado por manchetes apressadas e narrativas seletivas. Sim, temos problemas estruturais graves. Sim, há desorganização, desperdício, corrupção e improviso. Negar isso seria ingenuidade. Mas também é desonesto ignorar a quantidade absurda de dedicação, disciplina e empreendedorismo que pulsa silenciosamente no país.
Poderíamos encher livros com histórias de gente que constrói, insiste, reinventa, paga salário antes de pagar a si mesmo, que estuda depois do expediente, que não terceiriza responsabilidade. Mas livros não rendem cliques fáceis. O estereótipo, sim. Existe algo de quase perverso em como nos acostumamos a enxergar apenas o lado folclórico do Brasil, como se fôssemos eternamente o país da festa, nunca o da planilha. Como se alegria fosse sinônimo de descompromisso. Como se cultura popular anulasse ética profissional. Talvez o erro esteja justamente aí: confundimos celebração com ausência de seriedade.
O Carnaval é potência cultural, econômica, criativa. Gera emprego, movimenta setores inteiros, projeta o país. Não é pausa, antes, é trabalho para milhares de pessoas. Enquanto uns dançam, outros organizam, produzem, montam estrutura, garantem segurança, limpam ruas, administram recursos.
O Brasil não começa depois do Carnaval. O Brasil sustenta o Carnaval.
E sustenta hospitais, escolas, supermercados, aeroportos, padarias, transportes, empresas de tecnologia, oficinas mecânicas, indústrias e escritórios que nunca fecharam para “esperar o ano engrenar”.
Talvez esteja na hora de trocar a frase. Em vez de dizer que o Brasil só começa depois do Carnaval, poderíamos admitir algo mais verdadeiro e mais justo: o Brasil começa todos os dias. Mesmo quando ninguém está olhando.
Ele começa quando alguém veste uniforme antes do amanhecer.
Quando alguém abre a porta do comércio.
Quando alguém cumpre o turno noturno.
Quando alguém decide fazer certo, mesmo que ninguém aplauda.
Há um país que não aparece no noticiário sensacionalista nem nas piadas fáceis. Um país que não pede licença para trabalhar. Um país que, apesar de tudo, continua. E esse é o Brasil que realmente importa: não o que recomeça depois da festa, mas o que nunca deixou de começar.
___________
Ari Junior, Escritor, Cronista e Supervisor de Compras