Aqui Babá e os trocentos ladrões!               

Walter Naime

 

“Abre-te, Sésamo.”

Antes de tudo, vale lembrar rapidinho a história original: Ali Babá era um lenhador pobre que um dia viu, escondido atrás das árvores, quarenta ladrões abrindo uma caverna cheia de tesouros. A porta mágica só obedecia ao comando “Abre-te, Sésamo”, e ele, curioso como todo pobre esperto, decorou a senha, entrou e descobriu um mundo de riqueza escondida de quem realmente precisava. Era ouro pra dar e vender, mas guardado por poucos, exatamente como acontece por aqui. E é nessa onda de conto antigo que começa a nossa versão brasileira da história.
Ali Babá de ontem é Aqui Babá de hoje.

E o silêncio veio tão pesado que dava pra ouvir a poeira pensando. A caverna abriu devagar, como porta velha de porão que sabe dos podres. E lá estava Aqui Babá, aquele sujeito pobre, trabalhador, brasileiro típico: cheio de esperança, pouco dinheiro e cercado de ladrões por todos os lados.

Porque onde há riqueza neste país, sempre brota um ladrão com diploma. Não é ladrão qualquer, não. É ladrão formado, pós-graduado, especialista em meter a mão com técnica, tese, banca examinadora e experiência de campo. As escolas superiores da corrupção são públicas, gratuitas e abertas 24 horas. As aulas práticas passam na TV, no poder político, nos portais de notícia. Quem não aprende, é porque não aceita.

Mas riqueza, afinal, o que é? Antigamente era terra, minério, gado, açúcar, ouro, estrada, castelo. Hoje pode ser petróleo, energia, cargo, informação, contrato, verba, influência, voto, tecnologia, comida, logística, até promessa de futuro. Tem riqueza natural, territorial, energética, política, industrial, moral, de conhecimento, tecnológica, administrativa, alimentar, econômica, produtiva, material ou virtual. Se vale alguma coisa, alguém quer. Se alguém quer, outro tenta levar.

E pobreza? Ah, pobreza é o resto. É viver de migalha, de esperança parcelada, de futuro pendurado no fiado. É olhar essa caverna abrindo pros mesmos de sempre enquanto o povo fica do lado de fora, esperando cair um farelo.

Aqui Babá, ou melhor, Aqui Brasil, vive assim: cercado de riqueza, atolado em pobreza e convivendo com ladrões profissionais. E, de tanto ver roubalheira, o povo já nem arregala mais o olho. Fraude na Petrobras? Teve. Nos Correios? Teve. Nos bancos? No INSS? Nos combustíveis? Nos alimentos? Na educação, no transporte, na saúde, na merenda, na obra pública, no que você pensar? Teve também. O povo já aplaude como reality show: o que sai na próxima? Quem recebe imunidade? Quem ganhou bilhão desviando?

Os ladrões de hoje não se escondem na mata. Preferem ar-condicionado, gabinete, consultoria, mesa de vidro. São organizados, bem vestidos, falam bonito e ainda posam de Robin Hood: tiram do povo para dar… quase sempre a eles mesmos. A floresta deles é o poder, cheia de árvores tão altas que fazem sombra até na dignidade.

E aquela velha frase, “ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão”, virou piada. Porque, com tanta corrupção, quem é que vai dar esse perdão? Onde tira a senha? Qual fila entra? A democracia até tenta, mas parece rodoviária em feriado: lotada, barulhenta e com todo mundo tentando furar a mesma.

No fim das contas, Aqui Babá olha pra caverna, olha pro país, olha pra vida. E entende o drama: a gente tem a caverna cheia, tem a senha na ponta da língua, mas ela não funciona porque ainda não descobrimos a frase certa, aquela que abriria o cofre da honestidade nacional.

Enquanto isso, seguimos repetindo:

“Abre-te, Sésamo.”

E a caverna do Brasil, nossa caverna, só abre mesmo pros mesmos quarenta ladrões… ou melhor, pros trocentos que se multiplicam como coelho em safra boa.

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Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário

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