Gregório José
O Brasil acordou em 2026 com o despertador tocando dentro do cheque especial. São 73,3 milhões de brasileiros com o nome suando frio no cadastro de devedores. Dá quase metade da população adulta. Se juntar todo mundo numa fila, não cabe nem na imaginação do ministro da Fazenda.
O número é o maior da série histórica. Cresceu 9,39 por cento em relação ao ano passado e continua subindo naquele ritmo discreto de quem diz que vai começar a dieta na segunda. De dezembro para janeiro avançou mais um tanto. Pouco, dirão alguns. O suficiente, responderá o credor.
O dado mais curioso, ou trágico com senso de humor, é o salto das dívidas com quatro ou cinco anos de idade. Cresceram 34,30 por cento. Não são débitos, são aniversariantes. Já estão em idade pré-escolar. Isso revela que o problema não é apenas um tropeço no orçamento. É uma maratona correndo de chinelo.
A faixa dos 30 aos 39 anos lidera o bloco dos negativados. Mais da metade dessa turma está devendo. Justamente o pessoal que deveria estar produzindo, consumindo, financiando apartamento e comprando air fryer em dez vezes sem juros. Homens e mulheres dividem quase igualmente o aperto, com leve maioria feminina. A igualdade de gênero chegou até o Serasa. Democracia plena, inclusive na inadimplência.
Regionalmente, o Sul puxou a alta mais expressiva no número de devedores, seguido de perto pelo Sudeste. O Centro Oeste ostenta o maior percentual proporcional de adultos negativados. Quase metade da população adulta por lá tem uma história mal resolvida com algum boleto.
Cada inadimplente deve, em média, R$ 4.898,02. Um valor que não compra um carro, mas compra uma boa dor de cabeça. E não é dívida solitária. Cada pessoa deve, em média, para 2,26 empresas. O brasileiro é fiel até nisso. Não abandona um credor.
Quase um terço dos devedores tem pendências de até R$ 500. Quando o limite sobe para R$ 1.000, já alcança mais de 40 por cento. É a prova de que às vezes o drama nacional começa com uma conta de luz esquecida na gaveta.
No total, o número de dívidas em atraso cresceu mais de 15 por cento na comparação anual. É como se o país estivesse parcelando o próprio crescimento.
Especialistas pedem união de esforços, políticas públicas eficazes e educação financeira. Tudo correto, tudo necessário. Mas enquanto a planilha não fecha e o salário evapora antes do dia 15, o brasileiro segue fazendo o que sempre fez. Negocia, parcela, reza e promete que no mês que vem entra nos eixos.
O problema é que o mês que vem também vem parcelado.
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Gregório José, jornalista, radialista e filósofo