Adilson Roberto Gonçalves
Carnaval na carne, ou no carro? A origem da palavra parece ser inconclusiva, tal qual boa parte daquelas que adaptamos o uso. Língua é assim, sempre dinâmica. Pulo o carnaval e seus múltiplos significados: brincar, deixar de brincar, polir.
O Brasil começou antes do Carnaval, desta vez. Assim, não dá para descansar ou desligar dos acontecimentos. O caso do banco Master continua causando espanto e, mesmo com a saída estratégica de Dias Toffoli da relatoria do processo no STF, André Mendonça assumindo agora, por sorteio, não indica que haverá alguma evolução que venha a punir criminosos que se beneficiaram da estrutura precária das finanças envolvidas, tirando dinheiro suado do povo brasileiro, e tentar trazer um pouco mais de segurança ao sistema financeiro. Sim, sabemos que tal sistema que inclui o onipresente ‘mercado’ é fruto imaginativo de quem defende o capitalismo, mas, enquanto outro sistema não vingar, temos de conviver com a dura realidade dessa ficção. Ao contrário das séries na tv, não dá para desligar o sistema financeiros existente e assistir a outro.
A economia vai razoavelmente bem, mas o ódio ideológico faz com que seguidores da catástrofe antidemocrática fiquem cegos para ver a realidade. Nas redes sociais, por vezes, vaza alguma manifestação que simboliza o que a extrema direita está pensando. Dias desses, houve até falsa notícia sobre aumento de impostos para o setor de reciclagem, que levaria os catadores a abandonarem a atividade. Mesmo desmentido por comunicado oficial, o que se obtém como justificativa pelo absurdo postado é que hoje não se sabe mais o que é verdade e o que é mentira. Basta pesquisar para saber, mas não querem, pois é a mentira que ainda causará enormes ruídos na vida democrática incluindo as eleições.
Voltando ao tema, mais uma pesquisa para a eleição presidencial foi apresentada, com foco no segundo turno, em que Lula vence todos os demais pretensos candidatos, mas sem mostrar que a vitória já se daria no primeiro turno dentro da margem de erro da pesquisa, nos múltiplos cenários avaliados. Mas a volatilidade eleitoral traz como fato que as primeiras certezas eleitorais deste ano acontecerão apenas após abril, primeiro prazo da desincompatibilização da maioria dos cargos em disputa. Até lá, são previstas as trocas partidárias, as intenções – e má intenções – de candidatos e eleitores, as bolsas de apostas de quem sai e de quem não sai candidato, e a qual cargo. As notícias de agora – como a mudança partidária de Ronaldo Caiado e a “decisão” de Tarcísio de Freitas para concorrer à reeleição ao governo de São Paulo – somente alimentarão o conjunto de ações volúveis e voláteis a serem estabelecidas posteriormente. Algumas possibilidades são apenas fruto da imaginação. Ou da fantasia, para se ater ao entrudo que se inicia.
Como já aconteceu para a disputa para prefeito na capital, o PT deverá compor uma boa chapa com Simone Tebet para o governo paulista, com Fernando Haddad e Marina Silva para o Senado. Alckmin deverá continuar como vice de Lula e, mesmo que perca o governo paulista, a composição trará muito mais votos para a presidência no estado.
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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro