Ronaldo Castilho
A democracia contemporânea enfrenta um dos seus momentos mais desafiadores desde a consolidação dos regimes representativos no século XX. Em diferentes partes do mundo, observa-se o aprofundamento de tensões ideológicas, o enfraquecimento do diálogo público e a crescente desconfiança nas instituições políticas. Nesse contexto, torna-se necessário retomar a reflexão sobre o papel do cidadão na construção da vida pública, compreendendo que a transformação social não ocorre apenas por meio de lideranças ou estruturas governamentais, mas sobretudo pela participação consciente da sociedade no processo político. A cidadania ativa, o voto responsável e a disposição para o diálogo constituem elementos essenciais para o fortalecimento democrático e para a construção de um país mais justo e equilibrado.
O momento atual pode ser caracterizado como uma fase de intensa polarização ideológica. A polarização, em si, não é um fenômeno necessariamente negativo, pois a pluralidade de ideias é própria das sociedades democráticas. O problema emerge quando divergências legítimas passam a ser interpretadas como antagonismos irreconciliáveis, transformando adversários em inimigos e reduzindo o espaço para o consenso. Nesse cenário, o debate público tende a ser substituído por discursos simplificados, marcados por emoções intensas e pela rejeição ao contraditório. A consequência direta é o empobrecimento da esfera pública e a dificuldade de formulação de políticas que contemplem o interesse coletivo.
A preocupação com a participação cidadã não é recente. Desde a Antiguidade, pensadores refletiram sobre a relação entre indivíduo e política. Aristóteles afirmava que o ser humano é, por natureza, um animal político, indicando que a vida em comunidade exige envolvimento nas decisões que afetam o bem comum.
Para o filósofo grego, a participação na vida pública não era apenas um direito, mas uma condição para a realização plena da cidadania. Já na tradição romana, Cícero defendia que a república se sustenta na responsabilidade compartilhada entre governantes e governados, ressaltando que a negligência dos cidadãos abre espaço para a corrupção e para o declínio das instituições.
Durante o período moderno, a reflexão sobre o papel do cidadão ganhou novos contornos. Jean-Jacques Rousseau destacou que a soberania popular depende da participação ativa dos indivíduos, pois a vontade geral somente se manifesta quando os cidadãos se reconhecem como parte integrante do corpo político. Para Rousseau, a liberdade política não consiste apenas em escolher governantes, mas em participar do processo que define os rumos da coletividade. John Locke, por sua vez, enfatizou a importância do consentimento dos governados como fundamento da legitimidade política, reforçando a ideia de que o poder público deve sempre estar vinculado à vontade da sociedade.
No século XIX, Alexis de Tocqueville observou, ao analisar a experiência democrática norte-americana, que a vitalidade da democracia está diretamente associada à participação cívica e à organização da sociedade civil. Tocqueville alertava que a apatia política poderia levar ao que chamou de despotismo suave, caracterizado por cidadãos que, ao se afastarem da vida pública, delegam excessivamente suas responsabilidades ao Estado. Já no século XX, Hannah Arendt ressaltou que a política é o espaço da ação e da palavra, onde os indivíduos constroem coletivamente o mundo comum. Para a autora, o afastamento da política compromete a própria existência da esfera pública e enfraquece a liberdade.
Essas reflexões permanecem atuais diante do cenário contemporâneo. A polarização ideológica tende a estimular o afastamento de parte da população do debate político, seja por descrença, cansaço ou rejeição ao conflito. No entanto, a ausência do cidadão não elimina a política, apenas transfere as decisões para aqueles que permanecem ativos. A conhecida afirmação de que quem não gosta de política será governado por quem gosta expressa uma realidade incontornável das sociedades organizadas. A política não é uma escolha opcional no âmbito coletivo, mas uma dimensão inevitável da vida social. Negar-se a participar equivale, na prática, a abrir mão da própria capacidade de influência sobre os rumos do país.
O processo eleitoral, nesse sentido, representa um dos momentos mais importantes da participação cidadã. O voto não deve ser compreendido apenas como um ato formal ou uma obrigação legal, mas como um instrumento de responsabilidade social. O voto consciente exige informação, reflexão e análise crítica das propostas apresentadas. Em sociedades democráticas, eleições não se limitam à escolha de representantes, mas funcionam como mecanismos de renovação de ideias e de avaliação das gestões públicas. A abstenção, quando motivada pela indiferença ou pelo descrédito generalizado, enfraquece a representatividade e amplia a distância entre governo e sociedade.
A importância de não deixar de votar está diretamente relacionada à preservação da legitimidade democrática. Quando parcelas significativas da população se afastam do processo eleitoral, cria-se um desequilíbrio na representação política, favorecendo grupos mais organizados ou mobilizados. A democracia pressupõe diversidade de vozes e interesses, e essa diversidade somente se expressa plenamente quando há ampla participação popular. O voto, portanto, não é apenas um direito individual, mas um compromisso coletivo com o funcionamento das instituições.
Outro aspecto fundamental para o fortalecimento da democracia é a valorização do diálogo. O ambiente polarizado tende a reduzir a disposição para ouvir posições divergentes, substituindo a argumentação pela desqualificação do outro. No entanto, a história demonstra que avanços sociais significativos foram alcançados por meio da negociação e do reconhecimento da legitimidade das diferenças. O diálogo não implica abdicar de convicções, mas reconhecer que nenhuma visão isolada é capaz de abarcar toda a complexidade da realidade social. A convivência democrática exige tolerância, respeito e disposição para a construção de soluções compartilhadas.
A educação política também desempenha papel central nesse processo. Não se trata de formação partidária, mas de desenvolvimento da consciência crítica e do entendimento sobre o funcionamento das instituições. Cidadãos informados tendem a participar de forma mais qualificada do debate público, reduzindo a influência de desinformação e discursos simplificadores. A consolidação democrática depende, em grande medida, da capacidade da sociedade de compreender seus direitos e deveres, bem como os mecanismos que estruturam a vida política.
É importante reconhecer que a política, apesar de suas imperfeições, permanece como o principal instrumento de transformação social em sociedades democráticas. Mudanças estruturais, ampliação de direitos e construção de políticas públicas são resultados de processos políticos que envolvem participação, pressão social e deliberação coletiva. A ideia de que a política é intrinsecamente negativa contribui para o afastamento cidadão e, paradoxalmente, fortalece práticas que a própria sociedade critica. Ao contrário, a qualificação da política depende do engajamento daqueles que desejam aprimorá-la.
Diante do cenário atual, marcado por tensões ideológicas e desafios institucionais, o papel do cidadão torna-se ainda mais relevante. A democracia não se sustenta apenas por normas jurídicas ou estruturas formais, mas pela cultura política que orienta o comportamento social. Participar, votar, dialogar e acompanhar a atuação dos representantes são atitudes que fortalecem o tecido democrático e ampliam as possibilidades de transformação positiva.
Assim, a mudança de um país não se realiza exclusivamente por grandes reformas ou lideranças individuais, mas pela soma de atitudes cotidianas de milhões de cidadãos que compreendem sua responsabilidade na vida pública. A história demonstra que democracias sólidas são construídas com participação contínua, respeito às diferenças e compromisso com o bem comum. Em tempos de polarização, reafirmar o valor do diálogo e do voto consciente não é apenas um posicionamento político, mas uma defesa da própria democracia como espaço de convivência e construção coletiva do futuro.
Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.