Celso Gagliardo
Longe de nós ser críticos deste iluminado País. Sempre tive orgulho dessa gente de trabalho, alegria, encantamento e resiliência, essa capacidade de superar obstáculos, esse cair e levantar sem se cansar.
Entretanto, nos últimos tempos, impossível não refletir sobre os rumos da Nação face a tantas notícias ruins, decepções, golpes perpetrados que acabam afetando até o nosso humor, se não tomarmos cuidado.
Sim. Com o volume de informações – verdadeiras e falsas – em circulação, é preciso diferenciar o que nos cabe, daquilo que não nos pertence, sob pena da contaminação doentia, sofrimento em escala.
Sempre acompanhei a vida pública, a política. Gosto do burburinho e me divirto com as nuances e cenários do mundo que o bom coletivo deveria produzir. E sei que ali orbitam pessoas com os mais variados interesses e intenções. Aprendi isso desde idos tempos, nas conversas madrugada a dentro com tanta gente amiga da nossa Santa Bárbara, principalmente com o saudoso Adail Ribeiro.
Portanto, dessa seara sei que podem vir decisões boas, e outras nem tanto, até desvios de conduta lamentáveis, embora a legislação tente combater quase engessando a máquina pública. Mas sempre acham uma forma de driblar os controles, os Tribunais de Contas, o Ministério Público, enfim, a lei.
Agora, todavia, o caldo parece que entornou de vez. O noticiário é amplo no sentido de que o próprio Poder Judiciário – até então respeitado e contido – vê-se envolto em situações comprometedoras, ligações espúrias de altos Ministros ou seus familiares com movimentos suspeitos, fraudadores e criminosos que levam o Brasil à desgraça.
O Poder Judiciário sempre foi nossa esperança de decisões justas, honradas, descontaminadas de interesses, sem interferência do poder econômico. Para isso, os agentes da Justiça sempre se postaram a certa distância da vida comum, “munus” do cargo para a independência necessária. Longe de holofotes, de festas e convescotes, inclusive.
E isso me leva aos tempos de juventude, na nossa Santa Bárbara de então, quando acompanhávamos o pulsar da cidade e dificilmente conseguíamos falar com um Juiz de Direito, por exemplo. Eles ficavam encastelados na rotina forense e familiar. Não queriam se imiscuir na vida comum, preferiam o anonimato para poder julgar com isenção, pelo menos passavam essa intenção.
Houve uma ocasião que um Magistrado – de primeira instância – disse que tinha um certo constrangimento em ir morar num imóvel que a Prefeitura disponibilizava para a moradia do Juiz designado. Nada errado, mas a autoridade mostrou seu desconforto, tal a preocupação com a independência decisória.
A democracia é um regime interessante. Pressupõe a divisão de poderes independentes e harmônicos com “pesos e contrapesos” para o equilíbrio estatal e evitar a concentração de poder, abusos e arbitrariedades. Um fica “de olho” no outro.
Apesar da estratégia ser perfeita, os homens não são. E muitos deles ficam se coçando em busca de brechas da lei, fórmulas de envolver outros num conveniente compadrio, e com isso se protegerem. As estruturas buscam garantir o que é melhor para o coletivo, mas continuam dependendo da honradez dos detentores de Poder.
Estamos num ano de eleições. E o que nos cabe? Que saibamos escolher figuras honradas, ilibadas, de força moral e com têmpera de aço. Pois o jogo é muito duro e desafiador.
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Celso Gagliardo, profissional de RH e Gestão, jornalista (celsogagliardo.blogspot.com)