Walter Naime
No Brasil, ano eleitoral é tipo carnaval prolongado: começa antes da hora, termina depois do previsto e sempre sobra aquela sensação de que alguém sambou na sua cabeça sem pedir licença. Em 2026 então, tudo se mistura: confete, urna eletrônica, candidato fantasiado de salvador da pátria e eleitor tentando decidir se vota, se pula ou se só observa da arquibancada.
Os blocos já estão nas ruas: os canhotistas de um lado e os direitálhas do outro, cada um berrando seu enredo como se fosse a última disputa da Sapucaí. A polarização virou febre, virou figurino, virou marchinha de duplo sentido. É o país se dividindo em dois carnavais que se esbarram na esquina e fingem que é tudo normal.
Do Norte ao Sul, o povo cai no samba para descontar a dor que o governo, insiste em deixar pelo caminho. Afinal, parece que o país vive navegando dentro do próprio umbigo, como se fosse barquinho de papel no brejo burocrático. E o brasileiro? Ah, esse transforma dor em batuque. É talento ou é sobrevivência? Ninguém sabe, mas funciona.
No bloco dos canhotistas, as alegorias vêm ousadas: “A Fogueira da Igualdade”, “A Fênix da Justiça Social”, “O Carrossel do Estado Protetor”. Vermelho, roxo, lilás, tudo brilhoso. O samba-enredo mistura discurso, rap e esperança, com refrão pedindo mais direito, mais inclusão e umas pitadas generosas de emenda parlamentar, jogadas para o público como confete caríssimo pago com dinheiro do contribuinte.
Já nos direitálhas, o desfile é outra vibe: “O Trem da Ordem”, “O Mercado que Voa”, “A Fantasia dos Bons Costumes”. Azul, verde, branco e aquele dourado que parece ouro mas muitas vezes é latão pintado. O samba-enredo tem cara de hino, ritmo de sertanejo, letras sobre liberdade, segurança e um Estado magrinho, mas sempre alimentado pelas mesmas emendas, agora virando serpentinas que o vento carrega direto para algum gabinete.
Nos carros alegóricos, aparecem as versões carnavalescas dos Três Poderes: o Executivo vestido de super-herói cansado, o Legislativo fantasiado de vendedor de pacote turístico, e o Judiciário em traje tão luxuoso que até a comissão de frente fica sem graça. Todos giram bandeiras e evitam deixar cair as máscaras, coisa difícil, porque máscara aqui não protege só do vírus, protege de crítica, de promessa quebrada e até de si mesmo.
A modernidade chega com drones, hologramas, telão em 8K. Tecnologia para impressionar, para parecer que o país está no futuro, mesmo tropeçando no presente. É o carnaval do “olha como estamos avançados”, enquanto os fios ficam segurados por gambiarra.
E como não podia faltar, surgem os “Joãozinhos 30” versão digital: estrategistas, criadores de conteúdo, magos de algoritmo que costuram narrativas como quem prega paetê em fantasia de última hora. Eles definem a cor da tinta, o brilho do discurso, a ordem do desfile emocional.
Mas na quarta-feira de cinzas, tudo se encontra: canhotistas e direitálhas, sem glitter, sem fantasia, sem filtro. A ressaca chega igual para todo mundo. Ali, no chão frio da realidade, dá para ver quem é quem, ou perceber que, no fundo, todo mundo desfilou mais parecido do que gostaria de admitir.
A moral? Que o Brasil precisa escolher seu próximo carnaval político com menos fumaça e mais verdade. Talvez seja hora de um carnaval novo, do século 21: sem máscaras para esconder intenção, sem confete que tape buraco, com mais transparência e menos truque.
E mesmo com tudo isso, o Brasil continua sendo país de alegria teimosa. A gente ri, dança, canta e segue. Porque depois do carnaval vem a Copa do Mundo e finalmente a eleição, crise, esperança, decepção e sonho.
E, no fim das contas, só resta desejar: boa sorte, Brasil, e que os próximos desfiles sejam mais verdadeiros que as fantasias.
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Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário