Quando as pessoas mais valiosas não fazem barulho ao ir embora
3 de fevereiro de 2026
Existe um tipo de profissional que raramente reclama. Ele entrega, cumpre prazos, participa das reuniões, resolve problemas complexos e mantém o padrão alto — até o dia em que, de forma quase silenciosa, decide sair. Não é impulsivo. Não é por uma proposta isolada. E quase nunca é apenas por salário. Esses profissionais costumam observar mais do que falar. Percebem quando ideias não são escutadas, quando autonomia é confundida com desorganização, quando controle excessivo sufoca a criatividade. Eles sentem rapidamente quando o ambiente deixa de ser um espaço de construção e passa a ser apenas um lugar de execução. O que muitas organizações ainda não perceberam é que o trabalho mudou de natureza. Em muitos contextos, o valor não está mais na repetição eficiente, mas na capacidade de pensar, interpretar cenários, conectar informações e criar soluções. E isso exige algo que nenhuma máquina entrega: discernimento humano. Peter Drucker, ainda no século passado, já alertava que o ativo mais valioso das organizações do futuro não seria o capital físico, mas os trabalhadores do conhecimento — pessoas cujo principal diferencial está na capacidade de pensar, interpretar informações e tomar decisões em contextos complexos. O tempo mostrou que ele estava certo. E talvez o maior desafio atual das empresas seja justamente compreender como criar ambientes capazes de atrair e sustentar esse tipo de profissional. Ambientes que funcionam bem para tarefas previsíveis nem sempre funcionam para atividades complexas. Onde tudo é padronizado, o pensamento se estreita. Onde não há espaço para questionar, a inovação se cala. Onde o erro é punido, a ousadia desaparece. E aqui surge um paradoxo interessante: quanto mais estratégico é o trabalho, menos ele responde a modelos rígidos de gestão. Pessoas que trabalham com conhecimento precisam de confiança antes de entregar resultado. Precisam de propósito antes de engajamento. Precisam sentir que fazem parte de algo maior do que a própria função. Para o RH, isso muda completamente o jogo. Já não basta divulgar vagas atrativas ou oferecer pacotes competitivos. O verdadeiro diferencial está em construir contextos onde pensar seja permitido, aprender seja incentivado e contribuir seja valorizado. Onde as pessoas sintam que sua presença intelectual faz diferença. Talvez o maior erro das empresas hoje não seja perder talentos — mas não perceber o que realmente atrai aqueles que mais podem transformá-las. E é exatamente sobre isso que falaremos na próxima semana. Porque entender esse movimento deixou de ser tendência e passou a ser necessidade. Combinado?
Tarciso de Assis Jacintho — Administrador, Pós-Graduado em Gestão de Pessoas e Logística, fundador da AssistRH.