Armando Alexandre dos Santos
Tenho, a priori, enorme simpatia pela corrente historiográfica denominada “Nova Escola Cultural”, que é muito rica, variada e tem o grande mérito de fugir dos esquemas ideológicos rígidos que engessaram sucessivas gerações de estudiosos da História. Alguns autores dessa corrente, como os franceses Michel de Certeau (1925-1986) e Roger Chartier (1945-), desenvolveram os conceitos de discurso, de prática, de representação, sustentando a impossibilidade de se atingir uma verdade absoluta em matéria de História. Penso que essa posição, que em si é verdadeira, na prática precisa ser matizada. Concordo que a verdade absoluta é inalcançável pelos historiadores neste mundo, mas, por que insistir tanto nessa inalcançabilidade? Tenho visto professores de História que, sem ter nem de longe a profundidade e o senso de matiz dos dois aludidos pensadores franceses, disseminam entre os seus alunos uma mentalidade de verdadeiro terror contra o perigo de se procurar certezas históricas.
Vivemos numa época de profunda ausência de certezas, de crise de valores, de relativismo em tudo. O Papa Bento XVI afirmou, repetidas vezes, que a grande tentação do nosso tempo é o relativismo. Ora, parece-me que insistir tanto na impossibilidade de se alcançar uma verdade absoluta em História pode, querendo-se ou não se querendo, induzir o estudioso a uma cômoda posição relativista e descompromissada, que a nada de útil pode conduzir.
Em primeiro lugar, não existe mesmo verdade absoluta em História? Que os acontecimentos históricos, grandes ou pequenos, individuais ou coletivos, dizendo respeito à vida pública ou à privada, realmente ocorreram, na ordem concreta dos fatos, é inegável. Isso é absoluto, não é relativo. Em tese, pois, e independente da interpretação que se dê a esses fatos, isso é uma verdade, não é uma versão nem uma representação.
É claro que os fatos históricos passam por uma seleção e são triados pela memória das pessoas, e nesse trabalho de triagem já entram elementos subjetivos. Independente da seleção dos fatos, a mera memória das pessoas também exerce uma atuação seletiva e, portanto, subjetiva. Os psicólogos dizem que o mecanismo da memória humana está intimamente ligado ao mecanismo do amor e do ódio. Em outras palavras, tendemos a não esquecer aquilo que nos agrada muito ou nos contraria muito, mas somos levados a sepultar no esquecimento fatos que nos marcaram menos porque nos deixaram indiferentes.
Assim, quem registra os fatos, seja um jornalista no dia-a-dia, seja um historiador com recuo histórico maior e visão mais ampla, sempre fará a sua seleção subjetiva, seja ela no plano consciente e explícito, seja no subconsciente e implícito (pelo aludido mecanismo da memória). Seja, ainda, por outros mecanismos de outra natureza, como por exemplo o dos unilateralismos muitas vezes causados, explicitamente, por preferências políticas ou ideológicas, ou implicitamente, pela existência de traumas pessoais inconfessados etc. etc.
Tudo isso que estou dizendo, pois, reforça a posição da Nova Escola Cultural, de que não pode haver uma História Humana perfeitamente objetiva, que expresse a verdade absoluta. Essa posição parece-me inquestionável (a menos que adentremos no terreno das verdades religiosas, reveladas, ou na consideração do Juízo Universal como uma imensa lição de História, dada pelo próprio Deus a toda a Humanidade reunida – mas não é disso, óbvio, que se está tratando).
Mas, no total, embora nessa posição tudo fique muito claro e pouco se lhe possa objetar, confesso que sinto certo mal-estar com a desistência, pura e simples, de se alcançar nesta terra a verdade absoluta em matéria histórica. Em outros termos, embora reconhecendo que a verdade histórica absoluta seja inalcançável por nós, eu seria mais propenso a apresentá-la à maneira de uma UTOPIA desejável, que devemos perseguir incansavelmente.
Recordo ter lido, há muito tempo, um filósofo espanhol chamado Cabodevilla, que escreveu “Feria de Utopías”, um livro que me marcou muito. Ele mostra o papel das utopias na história da humanidade. Mostra que, embora sejam inalcançáveis, elas têm uma enorme importância, porque marcam balizas, mostram ideais para os quais se deve tender. O autor divide seu livro em sete capítulos, para estudar as sete grandes utopias permanentes da humanidade, atribuindo a cada uma um dos dias da semana. Daí o nome “Feria de Utopías” (feria vem do latim, a mesma raiz dos nossos dias 2a. feira, 3a. feira etc.).
Ele mostra, por exemplo, que vencer todas as doenças e alcançar a imortalidade é uma utopia. Mas é uma utopia fecunda e benfazeja, porque se não fosse ela, a medicina não progrediria. Os médicos só têm ânimo para se dedicarem aos estudos de sua profissão porque perseguem sempre o ideal utópico da imortalidade. É essa utopia que constitui a força propulsora mais ativa da medicina. Acabar com a miséria na terra é outra utopia. Mas os governos e as pessoas ricas devem proceder como se fosse ideal alcançável. Se assim não for, os pobres ficarão abandonados e viraremos uma imensa Cuba castrista ou Venezuela bolivariana. Acabar com as guerras e obter uma paz universal permanente também sabemos que é utopia. Mas não é um anseio universal benfazejo, um sonho que devemos alimentar e manter em nós, para o bem da própria humanidade.
Pois bem, sou levado a me perguntar: a Nova História Cultural, pela qual, repito, sinto enorme simpatia, não poderia ser aperfeiçoada sensivelmente se seus seguidores apresentassem a verdade histórica absoluta não como algo rejeitável e quase hediondo de que devemos ter horror, mas como um ideal que se deve amar, para o qual devemos tender, embora o saibamos utópico?
Se todos os historiadores procurarem, seriamente, fazer tudo o que estiver ao seu alcance para atingir a Verdade Absoluta, embora, humildemente, reconheçam que suas produções são apenas discursos, representações, imagens imperfeitas, etc. etc. – a História, enquanto ciência, não sairá lucrando, sobretudo em nossos tempos, tão relativistas, tão carentes de valores permanentes?