Barjas Negri
Ao concluir meus dois mandatos como prefeito de Piracicaba (2005–2012), tive a honra de ser convidado pelo então governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, para exercer a presidência da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), órgão operacional da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.
À época, a FDE tinha como principais atribuições a construção, ampliação, reforma e equipagem das escolas estaduais, além do fornecimento de mobiliário, materiais pedagógicos, livros didáticos, informatização e suprimentos às unidades da rede pública estadual. Pela experiência político-administrativa acumulada, eu poderia contribuir de forma significativa com esse conjunto de políticas. No entanto, recebi uma missão especial: agilizar a implantação do Programa Creche-Escola, em parceria com os municípios paulistas, cuja meta inicial era bastante ambiciosa, a construção de 1.000 creches em todo o Estado de São Paulo.
Esse desafio coincidiu com o início dos debates do Plano Nacional de Educação, aprovado posteriormente pela Lei Federal nº 13.005, de 2014. O plano estabeleceu que, em um prazo de dez anos (até 2024) o Brasil deveria garantir atendimento a 50% das crianças de zero a três anos em creches e a 100% das crianças de quatro a cinco anos na pré-escola. Naquele momento, os índices nacionais estavam distantes dessas metas: apenas 29,6% das crianças de zero a três anos eram atendidas em creches, e 89,1% das crianças de quatro a cinco anos estavam na pré-escola. O Estado de São Paulo apresentava indicadores superiores à média nacional, com 40,2% e 93,1%, respectivamente.
Ao analisar as condições técnicas e financeiras da FDE para os anos seguintes, bem como as dificuldades estruturais enfrentadas pelos municípios para aderir a um programa dessa magnitude, alertei que dificilmente a meta de 1.000 creches seria alcançada. Avaliava, entretanto, que com planejamento rigoroso, apoio técnico e esforço institucional conjunto, seria possível ultrapassar a marca de 500 novas unidades. Os resultados ao longo do tempo confirmaram essa projeção.
Em 2012, já haviam sido firmados protocolos de intenções com municípios para a construção de 231 novas creches. Em poucos meses, ampliamos significativamente esse número, chegando a protocolos assinados com 315 municípios, totalizando 439 novas unidades previstas. Para viabilizar
esse avanço, a FDE desenvolveu três projetos executivos padronizados de creches — com capacidade para 70, 130 e 150 crianças — o que permitiu acelerar os processos licitatórios nos municípios.
Coube às prefeituras a responsabilidade pela disponibilização dos terrenos e pela condução dos trâmites administrativos e licitatórios, enquanto a FDE assumiu o financiamento das obras e a aquisição dos equipamentos. Com isso, abriu-se a possibilidade concreta de apoiar a construção de até 670 novas creches, com investimento estimado, à época, em cerca de R$ 1 bilhão, capaz de gerar aproximadamente 70 mil novas vagas, uma meta ousada, mas tecnicamente bem fundamentada.
A equipe técnica da FDE ofereceu suporte contínuo aos municípios, ciente de que a liberação de terrenos, a tramitação dos processos e a execução das obras não seriam tarefas simples. Desde o início, ficou claro que a conclusão do programa demandaria vários anos. Exerci a presidência da FDE no período de 2013 a 2016, acompanhando de perto as etapas iniciais e intermediárias dessa política pública.
Recentemente, tive a oportunidade de retornar à FDE e dialogar com técnicos que atuaram diretamente no Programa Creche-Escola. Pude, então, conhecer o balanço final da iniciativa, praticamente concluída em 2025: foram entregues e implantadas cerca de 600 creches, atendendo aproximadamente 62 mil crianças de zero a cinco anos. O investimento estadual totalizou, em valores atualizados, R$ 976,5 milhões, ao longo de quase 13 anos de execução. Trata-se, portanto, de um esforço contínuo, de longo prazo, que alcançou seus objetivos centrais ao ampliar de forma expressiva o acesso à educação infantil.
Por fim, é importante destacar que, passados dez anos da vigência do Plano Nacional de Educação, o Brasil ainda não conseguiu cumprir integralmente as metas estabelecidas. Em 2024, o atendimento nacional alcançou 41,2% das crianças de zero a três anos em creches e 94,6% das crianças de quatro a cinco anos na pré-escola — índices ainda abaixo do previsto. No Estado de São Paulo, os percentuais foram mais elevados: 56,8% e 95,2%, respectivamente. Merece destaque o município de Piracicaba, que apresenta um dos melhores indicadores do país, com 68,9% de atendimento em creches e 100% de cobertura na pré-escola, evidenciando a importância da continuidade das políticas públicas e do planejamento de longo prazo na área da educação infantil.
Na Região Metropolitana de Piracicaba, foram atendidos 20 municípios, dos quais dez estão no entorno direto da cidade, entre eles Charqueada, Elias Fausto, Iracemápolis, Saltinho, Santa Maria da Serra, Mombuca, Capivari e São Pedro. Em Piracicaba, a escola foi construída durante a nossa gestão à frente da Prefeitura e está localizada no bairro Vale do Sol – Vida Nova.
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Barjas Negri foi ministro da Saúde e prefeito de Piracicaba por três gestões