Ari Junior
Teodoro, o Tatu, estava quieto na sua toca, lá nos Cafundós do Judas, quando um barulho estranho começou a ecoar pelos corredores do subsolo. Não era trovão, não era escavação clandestina, tampouco promessa de campanha. Era dinheiro caindo. Muito dinheiro. Em cascata.
— Ué… — resmungou o Tatu. — Isso não é cheiro de terra molhada. Isso é cheiro de banco em apuros.
Subiu à superfície e deu de cara com a manchete do dia: o escândalo do Banco Master, seus números mal explicados, operações pouco transparentes e um desfile de personagens que fariam inveja a qualquer camarote de carnaval fora de época. No centro da avenida, Daniel Vorcaro, cercado por uma trupe de executivos, relações públicas, advogados e silêncios ensurdecedores.
— Interessante… — coçou o casco. — Quando o dinheiro some, a fé aparece. Quando a fé entra em cena, o dinheiro reaparece. Coincidência é um dom divino.
Teodoro resolveu cavar mais fundo. Descobriu que, além de operações financeiras muito criativas, surgiam relações próximas com figuras influentes, inclusive nomes ligados ao alto escalão da duma Igreja, uma que, como todas, costuma falar alto sobre moral, bons costumes e salvação da alma… alheia.
— Então quer dizer que agora milagre também rende juros compostos? — perguntou o Tatu a um assessor engravatado, que carregava uma Bíblia numa mão e uma planilha na outra.
— Veja bem, Teodoro… — respondeu o homem, sorrindo como quem pede doação no PIX. — A Igreja não se envolve com essas coisas mundanas. Apenas… confia.
— Confia em quem?
— Em Deus.
— E o dinheiro?
— Ah, o dinheiro é terreno, mas circula melhor quando ungido.
Teodoro piscou. Já tinha visto político lavar dinheiro, empresa lavar imagem, e agora parecia que até o pecado passava por lavagem espiritual. O curioso era que quanto mais o escândalo crescia, mais nomes “intocáveis” surgiam no entorno: empresários bem relacionados, líderes religiosos midiáticos e figuras da direita nacional, sempre prontas a discursar contra a corrupção… desde que não fosse no próprio quintal.
— Engraçado — murmurou o Tatu. — Quando o escândalo é do outro lado, é pecado mortal. Quando é do lado de cá, vira perseguição, narrativa ou ataque à fé.
Resolveu ir à Capital da Nação falar com o Mandatário Supremo da Ordem e da Moral Seletiva.
— Excelência — disse Teodoro —, esse caso do banco, da igreja e dos amigos do poder… isso não preocupa o senhor?
— De forma alguma! — respondeu o Excelentíssimo, ajeitando o paletó com crucifixo dourado. — São apenas ruídos. E ruídos passam.
— Mas o dinheiro não passou. Só mudou de bolso.
— Veja bem, Tatu… ninguém é santo. Mas alguns são escolhidos. E quem o Senhor escolheu não se investiga, apenas se respeita.
Teodoro entendeu. No Brasil, a santidade funciona como foro privilegiado: protege do escrutínio, afasta perguntas e transforma dúvida em blasfêmia. Questionar vira heresia. Investigar vira perseguição ideológica.
E assim, enquanto fiéis seguiam pagando dízimos com fé sincera e certeza num paraíso que nunca vem, o altar parecia cada vez mais próximo do cofre, e o discurso moral cada vez mais distante da prática. Não havia provas conclusivas, os baluartes de Deus, pátria e família diziam. Mas havia fumaça demais para um incêndio tão pequeno. E Teodoro sabia: onde há fumaça, geralmente alguém já saiu correndo com o extintor… cheio.
Antes de voltar à sua toca, o Tatu deixou um bilhete pregado no poste da esquina, ao lado de um panfleto de culto e de um anúncio de crédito consignado:
“No Brasil, ninguém é santo. Alguns apenas aprenderam a rezar mais alto, falar em nome de Deus e operar em silêncio. E quando a fé vira escudo para o dinheiro, o milagre não é divino, é contábil.”
E Teodoro cavou de novo. Porque, neste país, quem não cava, afunda.
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Ari Junior, escritor, cronista e supervisor de compras