Ateísmo e os impactos na vida contemporânea

Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho

O que é o ateísmo e como ele se diferencia de outras posições filosóficas

O ateísmo é definido como a ausência de crença na existência de Deus ou de quaisquer divindades. O termo tem origem no grego atheos, que significa literalmente “sem Deus”. Diferentemente de concepções religiosas ou espiritualistas, o ateísmo rejeita a ideia de seres sobrenaturais como explicação para a origem do universo, da moral ou da existência humana.

Do ponto de vista conceitual, o ateísmo pode ser classificado em duas categorias principais. O ateísmo explícito refere-se à rejeição consciente e declarada da existência de divindades, enquanto o ateísmo implícito caracteriza-se pela simples ausência de crença, sem que haja necessariamente uma negação ativa ou reflexão filosófica elaborada. Essa distinção é amplamente discutida na filosofia da religião contemporânea, especialmente em estudos de autores como George H. Smith e Michael Martin.

É importante diferenciar o ateísmo do agnosticismo. Enquanto o ateu afirma não acreditar em Deus, o agnóstico sustenta que a existência ou inexistência de uma divindade é incognoscível, isto é, não pode ser comprovada nem refutada com os meios disponíveis ao conhecimento humano. Essa posição foi sistematizada no século XIX pelo biólogo e filósofo Thomas H. Huxley.

Raízes históricas e fundamentos filosóficos

            Embora frequentemente associado à modernidade, o ateísmo não é um fenômeno recente. Registros históricos indicam manifestações de pensamento não teísta já na Antiguidade, como em correntes do materialismo grego, especialmente em Demócrito e Epicuro. Na modernidade, o ateísmo ganha maior sistematização com pensadores como Baruch Spinoza, David Hume, Ludwig Feuerbach, Karl Marx e Friedrich Nietzsche, cada um oferecendo críticas distintas à religião e ao conceito de Deus.

            No campo acadêmico, o ateísmo é frequentemente fundamentado na ausência de evidências empíricas para a existência de entidades sobrenaturais e na defesa do método científico como principal ferramenta de compreensão da realidade. Essa abordagem está alinhada à epistemologia científica, que privilegia observação, experimentação e verificabilidade.

Ateísmo, autonomia moral e liberdade intelectual

            Diversos estudos em filosofia moral e psicologia social indicam que a ausência de crença religiosa não implica ausência de ética. Ao contrário, o ateísmo frequentemente se associa à autonomia moral, na qual os indivíduos constroem seus valores com base na razão, empatia, responsabilidade social e consequências práticas das ações. Essa perspectiva é amplamente discutida por filósofos como Immanuel Kant (no campo da moral racional) e, mais recentemente, por pensadores humanistas seculares.

Entre as vantagens frequentemente apontadas por estudiosos e pesquisadores estão a liberdade intelectual, que permite o questionamento de dogmas e tradições sem restrições religiosas, e a responsabilidade pessoal, uma vez que as escolhas e seus efeitos não são atribuídos a uma vontade divina, mas à ação humana concreta.

Além disso, pesquisas em psicologia da religião indicam que pessoas não religiosas tendem a experimentar menor incidência de culpa associada a normas morais rígidas, especialmente em temas como sexualidade, identidade e decisões pessoais. Esse fenômeno é analisado em estudos publicados em periódicos como Journal of Religion and Health e Psychology of Religion and Spirituality.

Bem-estar, felicidade e sociedades menos religiosas

Contrariando a ideia de que a religião é condição necessária para o bem-estar humano, estudos em sociologia comparada apontam que países com baixos índices de religiosidade – como os países nórdicos – apresentam elevados níveis de desenvolvimento humano, segurança social, igualdade e satisfação com a vida. Pesquisas conduzidas por autores como Phil Zuckerman e dados do World Happiness Report indicam que a ausência de religião não apenas não impede a felicidade, como pode coexistir com altos níveis de coesão social.

Considerações finais

O ateísmo, longe de ser apenas uma negação, constitui uma posição filosófica consistente, historicamente fundamentada e academicamente debatida. Ele propõe uma visão de mundo baseada na razão, na evidência científica e na valorização da vida presente. Como observou o filósofo Friedrich Nietzsche, a moralidade imposta por crenças sobrenaturais pode, paradoxalmente, afastar o indivíduo da responsabilidade ética genuína, ao transferir a noção de culpa e redenção para entidades externas.

Em uma sociedade plural e democrática, compreender o ateísmo como uma das múltiplas formas legítimas de interpretação da existência humana é essencial para o respeito à diversidade de pensamento e à liberdade de consciência.

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Douglas Alberto Ferraz de Campos Filho, médico, especialista em pneumologia, tisiologia e terapia intensiva

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