Alvaro Vargas
A pena de talião, adotada na antiguidade, está presente no código de Hamurabi, rei da Mesopotâmia, e representa um conjunto de leis escritas em seu reinado no século XVIII a.C. Adota o princípio de retaliação, mas não como uma vingança desmedida, mas proporcional à ofensa cometida pelo criminoso. Tal princípio é resumido no ditado popular “olho por olho, dente por dente”. Moisés incluiu esse código, conforme citado em Êxodo (21:24-27) e levítico (24:19-21), obras que compõem o pentateuco mosaico (Torá). Contudo, durante os quarenta anos de peregrinação dos hebreus no deserto, ele aprimorou os ensinamentos que recebeu mediunicamente de Jeová, guia espiritual de Israel: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. (Levítico, 19:18). Entretanto, Moisés não poderia esclarecer esse mandamento, devido ao nível de ignorância e belicosidade do povo naquela época, o que só ocorreu após quinze séculos, através da Boa Nova de Jesus.
Para os hebreus e posteriormente para os judeus, amar o próximo significava apenas a fraternidade entre eles. Tanto, que após a morte de Moisés, Josué liderou as tribos israelitas na conquista de Canaã (Números, 13:1) e, abusando de seu livre-arbítrio, agiu de forma bárbara contra todos os povos daquela região, iniciando por Jericó — “Tudo quanto na cidade havia destruíram totalmente a fio de espada, tanto homens como mulheres, tanto meninos como velhos, também bois, ovelhas e jumentos”. (Josué, 6:21). Esse exclusivismo dos judeus, discriminando os outros povos se manteve, e Jesus, mesmo respeitando a Torá, buscou esclarecer os seus 613 mandamentos, através de sua interpretação oral (Talmude): “Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas. Eu não vim para anular, mas para aperfeiçoar”. (Mateus, 5:17), dizendo de forma elucidativa: “Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. (Mateus, 5:38-39). Evidentemente, isso deve ser interpretado como uma exaltação ao perdão e o repúdio à vingança, visto que ninguém fica impune perante as leis de Deus.
Allan Kardec (Livro dos Espíritos, Q-764), explica que “a pena de talião é a justiça de Deus; é ele quem a aplica. Todos vós sofreis a cada instante essa pena, porque sois punidos naquilo em que pecais, nesta vida ou noutra. Aquele que fez sofrer o seu semelhante estará numa situação em que sofrerá o mesmo”. Por isso, Jesus quando estava sendo aprisionado e Pedro para defendê-lo atacou um servidor do templo, disse-lhe: “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão”. (Mateus, 26:52). O Espírito Emmanuel (XAVIER, F. C. Consolador, questão-272), esclarece que “a lei de talião prevalece para todos os Espíritos que não edificaram ainda o santuário do amor nos corações, e que representam a quase totalidade dos seres humanos. Presos, ainda, aos milênios do pretérito, não cogitaram de aceitar e aplicar o Evangelho a si próprios, permanecendo encarcerados em círculos viciosos de dolorosas reencarnações expiatórias e purificadoras”.
Felizmente, temos a opção de vivenciar os ensinamentos de Jesus, praticando a caridade, e evitar esse ciclo reencarnatório penoso. Não existe um fatalismo, e sempre podemos atenuar as faltas pregressas, e até mesmo extingui-las, pela ação do amor em relação aos nossos semelhantes. E, visando orientar os judeus, na superação de seu exclusivismo, Jesus citou a parábola do bom samaritano (Lucas, 10:25-37), mostrando a importância do exercermos a caridade indistintamente, independentemente da etnia ou religião professada pelo indivíduo necessitado que encontramos durante a caminhada terrena.
_____________
Alvaro Vargas, engenheiro agrônomo-Ph.D., palestrante espírita