Por que a prata subiu muito mais do que o ouro?

Ricardo Frias Caruso

Nos últimos 12 meses, quem acompanhou o mercado de metais preciosos percebeu algo fora do comum: a prata subiu muito mais do que o ouro. Ambos valorizaram fortemente, mas o metal branco deixou para trás o tradicional “porto seguro” do sistema financeiro. O fenômeno chama atenção não apenas pelo tamanho da alta, mas porque ajuda a compreender o momento atual da economia global.

A explicação começa por uma diferença essencial entre os dois metais.

O ouro sobe quando o mundo entra em estado de alerta. Guerras, tensões políticas, medo de inflação, insegurança com moedas, dúvidas sobre dívidas públicas e instabilidade nos mercados empurram investidores para ativos que preservam valor ao longo do tempo. Em 2025, o cenário internacional ofereceu motivos de sobra para essa busca por proteção. Não por acaso, bancos centrais voltaram a comprar ouro em volumes relevantes, reforçando seu papel histórico como reserva monetária e instrumento de defesa patrimonial.

A prata, por sua vez, tem um papel duplo — e isso faz toda a diferença. Além de metal precioso, ela é insumo industrial estratégico. Está presente em painéis solares, equipamentos eletrônicos, redes elétricas, sistemas de automação, dispositivos médicos e na infraestrutura que sustenta a digitalização da economia. Sempre que a indústria acelera, a demanda por prata cresce, pressionando os preços.

Nos últimos meses, esses dois motores funcionaram simultaneamente: insegurança global e demanda industrial elevada. O resultado foi uma valorização fora da curva, superior à do ouro.

Outro fator decisivo está no tamanho do mercado. O mercado de prata é significativamente menor e menos líquido do que o de ouro. Isso significa que, quando o dinheiro entra — seja de investidores, fundos ou compra física — o preço reage de forma mais intensa. A prata sobe mais rápido. E, quando o humor vira, também costuma cair com mais força. Essa característica explica por que ela costuma amplificar movimentos do ouro, tanto para cima quanto para baixo.

Há ainda uma questão estrutural de oferta que pesa no preço. Diferentemente do ouro, a maior parte da prata não vem de minas dedicadas exclusivamente a ela. Em muitos casos, a prata aparece como subproduto da extração de outros metais. Isso torna a oferta rígida: mesmo com preços elevados, a produção não aumenta rapidamente. Quando a demanda cresce e a oferta não acompanha, o preço sobe — e sobe rápido.

O ambiente macroeconômico completou o cenário. A expectativa de juros mais baixos nos Estados Unidos, combinada com períodos de dólar mais fraco, favoreceu ativos reais. Com juros menores, o custo de oportunidade de manter metais diminui. Investidores passam a aceitar melhor ativos que não rendem juros, mas preservam valor ao longo do tempo. Ouro e prata se beneficiaram diretamente desse movimento.

Também houve um componente psicológico importante. A forte valorização atraiu novos investidores, especialmente na prata, que historicamente parece “barata” quando comparada ao ouro. Esse fluxo adicional ajudou a acelerar o movimento e contribuiu para a sensação de escassez do metal.

### Por que a prata reage mais do que o ouro

A prata costuma se mover com mais intensidade porque seu mercado é menor e mais sensível a mudanças de humor. Quando o ouro sobe, a prata tende a acompanhá-lo — mas em proporção maior. Da mesma forma, quando o cenário se deteriora, as correções na prata costumam ser mais rápidas e profundas.

Essa característica faz com que a prata seja vista como uma oportunidade em ciclos favoráveis, mas também exige cautela. Ela não é um metal para quem busca estabilidade absoluta, e sim para quem aceita oscilações em troca de potencial de valorização.

### O que observar daqui para frente

Para os próximos 12 meses, alguns sinais merecem atenção especial. O comportamento dos juros nos Estados Unidos continua sendo determinante. Se os cortes realmente avançarem, o ambiente seguirá favorável aos metais. A evolução dos conflitos geopolíticos também pesa: quanto maior a instabilidade, maior tende a ser a busca por proteção.

Outro ponto importante é o ritmo da economia global. A prata depende mais da atividade industrial do que o ouro. Se houver desaceleração forte, o metal pode sofrer. Se a transição energética e os investimentos em tecnologia continuarem, a demanda permanece elevada.

Para os próximos 12 meses, o cenário mais provável é de preços elevados, porém instáveis.

O ouro tende a permanecer firme enquanto o mundo continuar convivendo com incertezas geopolíticas, fiscais e monetárias. Ele pode alternar períodos de alta e correções, mas segue cumprindo seu papel clássico de reserva de valor.

A prata pode continuar se destacando, mas com maior volatilidade. Se a demanda industrial se mantiver forte e os juros globais realmente entrarem em ciclo de queda, novas altas são possíveis. Por outro lado, qualquer desaceleração econômica mais acentuada pode provocar correções relevantes.

No Brasil, o impacto desses movimentos depende muito do câmbio. Quando o dólar cai frente ao real, parte da alta internacional do ouro e da prata não chega integralmente ao preço em reais. Quando o dólar sobe, ocorre o efeito inverso. Juros domésticos elevados também reduzem o apelo desses ativos, mas não impediram que a valorização recente chamasse atenção de investidores e do público em geral.

Em termos simples, o ouro segue sendo o seguro patrimonial clássico. A prata é o metal das oportunidades — e dos riscos. Ela pode oferecer ganhos maiores, mas exige preparo para enfrentar oscilações intensas e correções rápidas.

O que os últimos 12 meses mostraram é que, quando medo e crescimento industrial caminham juntos, a prata costuma correr mais rápido que o ouro. O desafio para 2026 será separar o que é tendência estrutural do que foi exagero de curto prazo, em um mercado cada vez mais sensível a mudanças de humor e política econômica.

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Ricardo Frias Caruso é articulista, avaliador de ativos reais e atua há décadas no mercado de ouro, joias e bens patrimoniais. Escreve sobre economia real, metais preciosos e proteção de patrimônio.

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