O Café Paris – Um café especial

Walter Naime

 

Piracicaba tem lugares que não aparecem como pontos no mapa, aparecem como pontos de encontro na alma da cidade. E o Café Paris é um desses, rua Boa Morte 1104, um ambiente onde o tempo parece tirar férias, onde o cheiro de café passado na hora mistura lembranças, risadas e histórias mal contadas. É lá que sentamos, eu e os amigos, não para mudar o mundo, mas para lembrar que ele ainda pode ser simples, humano e decente.

A xícara nem chega a esfriar, e a conversa já está quente. Falamos da cidade como quem fala de um parente querido: com orgulho, com bronca, com carinho e com aquele sorriso de quem sabe que amor verdadeiro também discute, reclama e defende. Lembramos das ruas antigas, das festas populares, das bandas de coreto, das procissões, das escolas e das figuras marcantes que ensinam que cidade não é concreto, é gente. O Val solicito e cordial junto com a Maria que pilota o avião da gastronomia são os protagonistas do bom atendimento. O garçom vem, sorri, traz o pedido e vai embora, porque sabe que naquele lugar o cardápio é detalhe: o sabor está na mesa.

E é curioso: todo café anuncia o seu “especial”, mas sempre o especial não tem chantilly nem espuma artística. Tem amizade. Tem respeito. Tem espírito público. A cada gole, um pedaço de Piracicaba se senta conosco, como se a própria cidade pedisse licença para entrar na conversa e dissesse: “Posso participar? Faz tempo que não ouço alguém falar de mim assim”.

Debatemos política, educação, cultura, saúde, trânsito e até futebol, mas sem briga, sem dedo em riste, sem cancelar ninguém. Não somos adversários, somos cidadãos. A divergência ali é treino de convivência. Cada opinião se coloca na mesa com delicadeza, temperada com bom humor e devolvida com argumentos, não com ofensas. E descobrimos que conversar é melhor do que vencer; e que ouvir é um gesto raro, mas precioso. Em tempos de gritos virtuais, sentar para conversar vira quase um ato de resistência.

No meio das ideias, surgem piadas, histórias antigas, provocações amistosas, lembranças da juventude e até aqueles “causos” exagerados que só funcionam quando o café está forte e o riso chega fácil. A amizade circula como o açúcar: cada um coloca um pouco e adoça o clima. E ninguém precisa concordar com tudo, basta respeitar. A cidade cresce ali, no pequeno território de uma mesa, como se cada palavra fosse tijolo e cada gesto fosse cimento.

O tempo passa devagar, daqueles que não têm hora marcada para terminar. Pessoas entram e saem, carros passam, o mundo continua acelerado lá fora, mas nós estamos em um fuso horário afetivo: o horário da confraternização. Quando nos levantamos, o café já é só um resto frio na xícara. Mas o aconchego fica: o tipo de calor que não vem da bebida, e sim das pessoas.

E então percebemos: o café especial não é o que bebemos, é o que vivemos. É o privilégio de olhar nos olhos, de conversar sem medo, de rir sem receio de ser julgado, de saber que amizade verdadeira não expira como nota fiscal. E que espírito público não nasce em discurso, nasce do encontro, quando alguém diz: “Vamos cuidar da nossa cidade?”

Saímos dali leves. Com a sensação de que, enquanto existirem mesas, cadeiras, cafés e amigos dispostos a conversar, a humanidade ainda tem salvação. Porque o mundo melhora de gole em gole, palavra por palavra, pessoa por pessoa. E, se todo café tivesse esse tipo especial, talvez a vida tivesse menos amargura.

Em Piracicaba, quem passa pelo Café Paris pode achar que é só um lugar. Mas quem senta, quem conversa, quem olha para o outro como gente, descobre que ali existe mais do que cafeína. Existe memória, respeito, brincadeira, cidadania e afeto. E isso, meu amigo, não vem no cardápio: vem no coração.

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Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário

 

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