Élcio Maichacki
Comecei a trabalhar vendendo alface, com dez anos, aqui mesmo em nossa Piracicaba no ano de 1979. Pegava minha cesta, que não era tão grande e ia até a horta do seu João, que ficava próxima à margem do ribeirão do “Risca Faca”, num terreno em declive, na baixada do antigo bairro, hoje, Monte Cristo, mas, que à época também era conhecido por “Risca Faca”, nome, hoje, esquecido pelos mais jovens, que conhecem o bairro pelo nome de Jardim Monte Cristo. Só mesmo os mais antigos irão se lembrar dessa denominação pejorativa que o bairro carregava.
Mas vamos à minha cestinha de alfaces. Os espaços dela eram preenchidos por uma dúzia de grandes maços de alfaces que o senhor João, depois de lavá-las na água limpinha da nascente, me entregava para a pronta venda, que começava depois do portão da sua horta, entranhando eu nos bairros das adjacências: Jaraguá, Paulista e até Paulicéia.
Mas dificilmente chegava até a Paulicéia, pois as mercadorias não permaneciam por muito tempo na cesta devido a rapidez com que eram vendidas; mercadoria boa e barata. Lembro que cada maço da alface eu vendia a cinquenta centavos de cruzeiro. No final das vendas enchia o bolso do avental de pano com notas de um cruzeiro e moedinhas de dez centavos; vinte centavos; cinquenta centavos. Às vezes eu conseguia uma nota de 5 cruzeiros, na qual estava estampada a face do jovem Dom Pedro I, sem barba, cabelos pretos, pai do idoso Dom Pedro II, de barbas e cabelos branquinhos da cor da neve, estampado na nota de dez cruzeiros, que raramente vinha parar no meu bolso. Também havia a moeda “grandona” e a “pequenina” de 1 cruzeiro.
Eu achava lindas as moedas e as notas de cruzeiros, mal sabia eu, inocente que era, que logo essas notas seriam deixadas de lado para darem lugares a outras cédulas e moedas devido ao galope rápido e incessante da alta inflação que naqueles anos assolava o nosso Brasil. E assim foi. Não demorou muito e essas notas e moedas “sumiram de circulação”, por não terem mais “valor”, tiveram que dar lugar a novas notas de “mil cruzeiros”, “cinco mil cruzeiros”, “dez mil cruzeiros”, ou seja, outras cédulas com mais zeros, ponto e virgulas nos seus indicativos de valor.
E mais alguns anos adiante trocaram o nome do nosso dinheiro, o grande “cruzeiro”, que eu o achava “o máximo”, para nomes sem brilho, sem status para mim, tais, como: “cruzado”, “cruzado novo”, etc.
Estudava eu, no período da manhã na escola Estadual “Dr. João Conceição”, na Paulista. Estava na quarta série do primário, quando comecei entrar no “mercado de trabalho”. Não culpo meus pais por isso, porque, apesar de, na época, eu querer só brincar, tinha também que trabalhar, pois meus pais viviam sob esse contexto “histórico” dos filhos começarem a trabalhar muito jovens para ajudarem nas despesas da casa.
E assim eu vivia: brincava, mas também já trabalhava, bem novo, aos dez anos. E o sabor da minha alface era único. Regado com água da bica, adubado com esterco de vaca, sem agrotóxico, era tudo de bom. A Alface chegava às donas de casa, minhas clientes, através das minhas caminhadas empenhadas em vender rápido as alfaces para eu ficar livre e depois poder brincar de pega-pega, soltar papagaio, rodar pião, jogar bolinha de gude. Assim era Piracicaba e suas crianças da periferia no finalzinho dos anos 1970 e início dos anos 1980.
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Élcio Maichacki, da Rede Estadual de Ensino há 20 anos, é o Professor Élcio da Horta