Noturno de Sueli

À Sueli desconhecida. À porta, em noite ida.

 

Quando Sueli chegou à porta, Sueli não mais havia. Havia a imagem morta da mulher que foi um dia. Dedo na campainha (pimmm!), era a sombra de uma figura torta: Sueli, travestida de brilho, talvez quisesse a realeza de uma noite de rainha. Pimmm! Pimmm! Campainha! Campainha! Era Sueli, sem Sueli à porta. E o mistério se fazia – porque a noite, parecia, também a Sueli queria. Mas não a Sueli de agora (a da rua, feita Ismália sem torre e sem lua), mas a Sueli desconhecida de um dia – real, que toda sentida. Pimmm! Pimmm! Porque a Sueli à porta – coitada – essa nem mais a vida tinha.

Sem horizonte, sem prumo, sem certeza ou enganação, Sueli parada à porta se anunciava em vão: “é a Sueli” – como a letra de uma passagem remota de algum samba-canção. (“Vai Sueli, seu caminho é de paz e amor” – ou coisa parecida). E a Sueli não se ia. Seu dedo na campainha, incansável, insistia. Pimmm! Pimmm! Sueli sem sonho e sem razão, na confusão da sua mente chamava por alguém ali. Pimmm! Pimmm! “Sueli? Quem é você?” – perguntaram de dentro de casa, pelo interfone. “Quem sabe?” – respondeu ela, dizendo sem cabimento a sua mais sublime verdade.

Depois, sem querer mais dizer de si, perguntou por João Batista. (Seu homem? Seu pai? Seu irmão?) Exigiu por João Batista, batizada na ilusão. (Porque – em casa – nem rio ou João Batista existiam). Tristeza. Alienação. Sueli, a mulher parada à porta, era incerta (realidade) feita de razão perdida em insana concepção. “Aqui não tem nenhum João” – responderam de dentro, entre sustos e medos. “Sei que ele está aí” – redarguiu – “que esse homem de mim não guarda mais segredos”.

Então, ante a entrada em clausura, deu-se em Sueli a mais que definitiva loucura. Dedo na campainha, boca-coração ameaçando trazer a polícia, a milícia, a Prefeitura. (Pimmm! Pimmm!) Ralhava, ofendia, rogava a praga mais cruel de sua cruel que insólita abnegação. Em casa, por dentro, piedade, hesitação. “Vai Sueli, seu caminho é de paz e amor” – cantou-se entre dentes, entrementes, em medo iminente de iminente preocupação. Mas Sueli não se ia. (Pimmm! Pimmm!).

Como, porém, um dia tudo termina e a noite sempre evapora, os de casa – a fim de darem fim àquele jogo de campainhas e oposição – abriram à porta para que Sueli visse que no lugar não havia João e fosse embora. Pausa. Mundo cão. Sueli perdeu ainda um pouco mais a realidade concreta da qual detinha um raro fio – e diante da porta semi-aberta contemplou com insensatez um espaço de Joões vazio. “Canalha” – disse consigo. E fez-se frio dentro do peito. Então, Sueli rio meio sem jeito. Mas ainda desconfiada, disse se fosse mentira chamaria o padre e o prefeito de sua cidade inventada.

Depois, por fim, foi embora. Num “comigo não me mexo” saiu calçada afora tentando encontrar um eixo. “Vai Sueli, seu caminho é de paz e amor” – cantou-se finalmente em casa (e a noite quase encontrou seu fim, antes mesmo de começar – razão batendo o queixo, emoção batendo asas). “Vai Sueli, segue na vida seu rumo tortuoso”.

Os de dentro não bem ficaram. Perdidos no desencontro, também desviram o seu sentido de si. “Foi mesmo embora a desejada indesejada da mulher que antes se via?” Em de repentes, assim, pasmaram-se aflitos no sem som do silencio fóssil – ausentes que deslocados, descontentes que soturnos, semi-dormentes. Todos. Subitamente carentes daquele amor que louco-doente de Sueli.           

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Alê Bragion é cronista desta Tribuna desde 2017

 

 

 

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