Filosofia dos amigos

José Osmir Bertazzoni

Um irmão que Deus já levou deixou-me uma lição importante, da qual me socorro nos momentos mais difíceis. Edsel Clemente, o Xerife, foi funcionário municipal de Piracicaba, veio da aeronáutica, onde era piloto de caça e tenente na Força Aérea. Pessoa simples, capoeirista, com formação em jornalismo, relações públicas, publicidade e propaganda pela Unimep.

Ele sempre foi ligado aos animais — um tanto exotérico às vezes, viajava para outros planetas, porém não perdia razão em suas observações e conselhos. Lembrando do passado, recordo-me de um dia que fui à casa do amigo Edsel Clemente, onde também funcionava uma empresa familiar que prestava serviços de cópias (xerox), encadernação e confecção de teses e trabalhos acadêmicos.

Xerife tinha um cão dobermann gigante, muito bravo. O dobermann, quando eu chegava à casa do amigo, deitava-se ao chão e virava sua barriga para receber um carinho e demonstrar afeto, um agrado meu, e não manifestava qualquer ato agressivo. Por meses, Xerife percebeu aquele gesto do seu dobermann, até que um dia disse: “Você sabia que com este gesto que o cão expõe sua caixa visceral para você, colocando a barriga para cima, ele está dizendo que lhe confia muito?”

Naquele momento, comecei a buscar o mínimo de entendimento, mas juro que tinha dificuldade de entender e, por isso, logo ele me esclareceu. Disse Edsel: “os animais protegem a barriga porque suas vísceras ficam expostas aos lobos ou a outros predadores, é o ponto vital mais próximo para sofrer ataques letais… motivo pelo qual, quando o animal expõe a caixa visceral (barriga) para alguém, significa que ele confia muito naquela pessoa”.

Venho carregando essas filosofias do amigo Xerife há muitos anos, mesmo antes de sua trágica morte (com sua passagem para o Divino), o que me fortaleceu ainda mais suas lições, por mais simples que elas aparentem ser.

Na filosofia ensinada por Edsel Clemente, somente amigos confiantes absolutamente expõem suas vísceras a outro amigo e, quando um dos amigos quebra a cadeia de confiança, certamente, um amigo não prejudicaria o outro nem mesmo diante de uma discordância. Conquanto, se ocorrer traição, necessariamente, não será o amigo que vai atacar sua fragilidade, mas haverá uma matilha de lobos predadores buscando fazê-lo e, se sobrar algo, será devorado pelos abutres.

A traição da confiança é o ato mais bárbaro do ser humano, algo imperdoável, terrível e requer muita prudência após o elo que se rompeu.

Os erros dos seus amigos são exatamente os seus erros, quando se anuncia o erro do outro, anuncia-se também o seu próprio erro; coloca-se diante das mesmas consequências, razão pela qual o aprendizado de um é o aprendizado do outro. Convivência longa com um amigo em que se confia gera sempre cumplicidade.

Novamente, coloco minha âncora em mares profundos, inspiro-me desta feita na postura de Olavo Bilac, quando um amigo lhe ofertou uma venda de imóvel. Olavo Bilac apanhou o papel que o amigo lhe estendia e escreveu:

VENDE-SE ENCANTADORA PROPRIEDADE

“Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo. Cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”.

Meses depois, o poeta reencontrou o comerciante e perguntou-lhe se havia conseguido vender a propriedade.

— Nem pense mais nisso Sr. Bilac! Quando li o anúncio que o senhor escreveu é que percebi a maravilha que tinha nas mãos.

Às vezes, não descobrimos as coisas boas que temos conosco e vamos longe atrás de miragens e de falsos tesouros. Valorize o que você tem. A pessoa que está ao seu lado, os amigos que estão junto a você, o emprego que Deus lhe proporcionou, o conhecimento adquirido, a sua saúde, o sorriso… Enfim, tudo aquilo que Nosso Senhor nos oferece diariamente para o nosso crescimento espiritual.

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José Osmir Bertazzoni, jornalista, advogado; e-mail: [email protected]

 

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