Pedro Kawai
Já ouvi afirmações de que “sobre política, futebol e religião, não se discute”. Não concordo, assim como não penso ser verdadeira a tese de que “falar sobre inclusão social, discriminação de gênero e etnia são formas de se excluir”. Tais colocações são ditas, ao meu ver, sob duas hipóteses: ou a pessoa não possui opinião própria e conhecimento suficiente para enfrentar um debate de ideias, ou se esconde por trás de sua cômoda posição, de sempre se poupar para não revelar o que realmente pensa.
No final da semana passada, tive o privilégio de mediar uma roda de conversa, promovida pela Escola do Legislativo, sobre a importância do negro na política. Um tema fascinante e muito revelador, pois confirma que o Brasil tem uma enorme dívida social com os negros. Importante salientar, desde já, que não se trata de um discurso de piedade ou compaixão, mas de reconhecimento e de se fazer justiça. Vamos às reflexões:
A libertação dos escravos, segundo historiadores e estudiosos sobre o tema, “despejou” na sociedade, da noite para o dia, milhares de libertos à sua própria sorte. Sem trabalho, sem comida, sem dinheiro e, até mesmo, sem um único documento. Mas a história oficial prefere omitir esse capítulo das páginas dos livros, para não escancarar nossa vergonhosa verdade. Aliás, a história do Brasil é repleta de fatos distorcidos, convenientemente reescritos.
Hoje, 133 anos depois da suposta libertação dos escravos, o negro, em nossa sociedade, ainda é minoria, e isso não se deve por um número inferior de afrodescendentes em relação aos brancos, mas pela escassez de oportunidades, pelo preconceito, pela discriminação velada e pela absoluta falta de amparo das instituições para assegurar o direito à igualdade, prevista na nossa Constituição.
Contudo, os movimentos democráticos, criados pela sociedade organizada contribuíram fortemente para que essa realidade começasse a se modificar, embora ainda haja muito a ser conquistado.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral revelam que, da eleição de 2016 para 2020, o número de parlamentares negros nas câmaras municipais, aumentou 2,6% o que já é um grande avanço, mas ainda insuficiente para assegurar a igualdade racial entre brancos e negros. Em Piracicaba, por exemplo, não havia um único vereador entre os eleitos em 2016, que se declarou negro, ao contrário de 2020, quando quatro negros se tornaram parte do legislativo municipal. Essa desproporcionalidade, embora menor, também se reflete no Congresso Nacional, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.
O debate sobre a igualdade racial não deveria ser debate, mas diálogo, porque entendo que brancos, negros, indígenas e descendentes de orientais são todos da espécie humana, portanto, somos todos iguais, como bem descreve a frase na porta do Cemitério da Saudade. Apesar disso, sabe-se que, de acordo com o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 54% da população brasileira é negra e, segundo estudo publicado pela Universidade de São Paulo, com dados do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada de 2016, as mulheres brancas recebem 70% a mais que as mulheres negras.
Tais números revelam o tamanho da desigualdade racial no Brasil, que, obviamente, expressam também, feridas sociais como a pobreza, a fome, o analfabetismo, a falta de acesso à saúde, à educação e aos direitos fundamentais a qual todo ser humano tem direito, especialmente, à dignidade de ser tratado e respeitado como igual.
O 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2020) também comprova a diferença no tratamento dispensado, por forças policiais, a brancos e negros: dois em cada três detentos são negros. O relatório conclui que as prisões dos negros acontecem em razão das condições sociais, não apenas pela pobreza, mas por dificuldades de acesso aos direitos e a vivência em territórios de alta vulnerabilidade.
Estas e outras questões não podem nem devem ser tratadas apenas por ocasião de celebrações como o 13 de maio e o 20 de novembro, datas reconhecidamente importantes, mas insuficientes para reafirmar que ainda há muito o que se conquistar. Não podemos, como agentes públicos e, acima de tudo, como cidadãos, permitir que o racismo insista em nossa sociedade, como forma de subjugar, subestimar e reduzir a importância do próximo, seja ele como for. E, como resposta a alguém que um dia se considerou Ministra da Cultura, não há “consciência branca”, porque escravo branco é apenas obra literária ou de dramaturgia.
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Pedro Kawai, vereador pelo PSDB em Piracicaba, membro do Parlamento Metropolitano